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Coisa mais linda

Por Gabriely Santos

Precisamos falar sobre Coisa mais linda. Primeiro porque, sim, a série é uma produção nacional muito bem feita, as histórias nos envolvem, as protagonistas nos cativam, o visual do Rio de Janeiro no fim dos anos 50 é incrível e essa época, com Tom Jobim e Vinícius de Moraes e as garotas de Ipanema foram a Era de Ouro do Rio e,talvez, do Brasil. É triste, mas inegável. Depois disso o descaso público e a violência fizeram ficar feios mesmo os cenários mais cinematográficos. Mas isso é assunto pra outro texto. Segundo, porque Maria Luíza, a moça rica de São Paulo que foi traída e abandonada pelo marido, quando acreditava ir reencontrá-lo no Rio para viverem juntos e montarem um bar, é bem gente como a gente, ainda que os curingas da série sejam a Adélia – que é, desculpem o palavreado, um mulherão da porra, negra, trabalhadora, mãe solteira, mas sem tempo ruim e pra aguentar os tipos de desaforos que via, ouvia e vivia, só assim mesmo, ela, junto com a Mel -maravilhosa- Lisboa, que é Tereza, uma jornalista, escritora, feminista, a que faz as coisas do seu jeito porque é independente e bem resolvida, e, finalmente, Lígia, que é cantora, mas é mais mulher do marido político que aprendemos a desprezar desde o primeiro episódio. 


Ao longo da série, acompanhamos o crescimento das personagens, torcemos, sofremos com elas, com essas mulheres que vão se descobrindo fortes, um mundo que não foi feito pra elas. Desde as burocracias e comentários depreciativos a violência, de fato. Um homem pode te agredir com um tapa, mas também pode fazer isso com palavras, com gaslight (indico o filme dos anos 40 também), com medo que ela cresça e não precise mais dele. Ele te diminui porque isso é mais fácil. Ele diz que faz isso porque te ama, que você não vai conseguir continuar sem ele. Mas a mulher sempre continua. Sangramos todos os meses até que nossos ovários cedam. A gente fecha contratos, faz provas da faculdade, dirige, pega ônibus, trem, avião e, por dentro da calça, saia, vestido, biquíni, farda, sangramos. E ninguém percebe nada. Também, porque temos que ser impecavelmente limpas e perfeitas e profissionais e mães e esposas e filhas e sobrinhas e alunas e engenheiras, arquitetas incríveis porque não nascemos homens e precisamos competir com eles, mas, mais que isso, precisamos agradá-los.


Então, acho que todo mundo deveria dar uma chance pra série. Sem o choro de ódio tupiniquim, que a gente sempre foi paga pau de gringo e despreza as coisas de casa. Não temos que ser um reflexo do nosso governo que nos despreza e acha arte inútil. Mas preciso comentar, finalmente, e aqui com um pequeno spoiler, uma verdade inconveniente: Quando Tereza tem que escolher um novo estagiário para a revista Angela, onde trabalha, uma revista DE mulher PARA mulher, vemos que a redação era toda feita de homens, esse é o Carlos da culinária, aquele é o João que fala de moda e maquiagem, etc. E ela era a única mulher lá. Será que daqui 70 anos faremos um filme-série-qualquer diabos que tenham inventado em 2085 em que um monte de diretores se reúnam e as primeiras diretoras mulheres cheguem até lá pra comentar que aquele é um filme-série-qd DE mulheres PARA mulheres. Apenas dois episódios tem uma diretora. Reflitam. Foram cinco diretoras indicadas ao Oscar em 91 anos de premiação. E pior ainda é a nossa ausência num lugar ainda mais essencial da vida em sociedade: a política. Estamos falando de um país que calou sua última ativista a tiros. Ela era mulher e negra e estava lá no império dos homens brancos engravatados heteronormativos. E ainda não se sabe, quem matou Marielle Franco. 
Vocês sabem em que ano se formou a primeira advogada do Brasil? E a primeira médica?  Elas são, respectivamente, Myrthes Gomes de Campos, primeira advogada do Brasil em 1898 
e a primeira médica Rita Lobato em 1897. Antes ainda, nossa primeira jornalista, Narcisa Amália de Campos em 1884, fundou seu próprio jornal Gazetinha “folha dedicada ao belo sexo”. Mas a primeira mulher no Supremo Tribunal Federal foi em 2000. Sim, todas nós já estávamos vivas, quando Ellen Gracie chegou no STF, um lugar em que sua presença era tão insólita e o ambiente tão inóspito que nem banheiro feminino existia lá. 


O lugar da mulher é onde ela quiser. Será? O último episódio da série e, vou tentar não ser spoiler demais, mas aquilo é um tiro na cara da sociedade. Que falha com as brasileiras todos os dias,várias vezes por dia, em 2017 foram 606 casos de violência doméstica e 164 estupros por dia. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com a taxa alta de subnotificação (o medo, a promessa do parceiro de mudar, vergonha, vários fatores) a estimativa é de que possam ser mais de 500 mil por ano.


São 4.254 homicídios dolosos de mulheres em 2018. Uma mulher é morta a cada duas horas no país. Entendem? Enquanto eu maratonava a série da Netflix 14 mulheres foram assassinadas no Brasil. É muita mulher. Parece que a vida da gente não vale nada. É mais um corpo na vala, uma estatística. Como as mulheres que morrem de aborto por ignorância e negligência do estado que criminaliza o ato, porque a grávida precisa ser confrontada com riscos, desnecessários, de morte e infecção e não apenas sua escolha. Não são fuzis em nossos braços, mas nosso corpo é um campo de batalha, disse uma feminista. E o povo não precisa de mais armas. E a verdade é que o mesmo estupro que a sociedade fez com a mãe terra, nós sofremos e sangramos nossas existências, todos os dias. E os homens do nosso caminho que sejam companheiros e não opositores, para crescermos juntos. Termos o mesmo tamanho. E ninguém precisar diminuir ninguém. Lá onde, infelizmente, também, vivem os unicórnios.