Artigo | Arte | Paulo Leônidas

Um príncipe calvinista

e dois pintores no

Trópico do Pecado

Por Paulo Leônidas

Em 1500, os índios brasileiros estavam conhecendo pela primeira vez os portugueses e sua “civilização”. Através dos jesuítas que chegaram aqui ao mesmo tempo e impuseram aos índios, que andavam nus, a ideia de pecado sobre o corpo, que até hoje faz parte da cultura brasileira.

A imagem de um corpo nu, especialmente, o corpo da mulher, colocado na parede de um museu ou de uma galeria de arte no Brasil, constitui um ícone pertencente a nossa cultura. Mas cabe indagar como foi que o nu começou a adquirir essa posição na nossa nacionalidade? Talvez a Arte possa nos indicar pistas e respostas.

Em 1550, na cidade de Rouen, numa festa oferecida por Catarina de Médicis a Henry I, o grande espetáculo da noite era a aldeia cenográfica de índios brasileiros que foi construída para entreter os monarcas franceses, com a presença de alguns “sauvages” autênticos, mas ente eles muitos franceses fantasiados. A influência da ideia do “sauvage” a partir desta época se desdobra em muitas vertentes, como por exemplo na filosofia política por meio de Montaigne e tantos outros nas artes. O Renascimento francês se utiliza deste “naturalismo americano” a partir desta época em centenas de frisos e pinturas de imagens e símbolos de nossos indígenas, de suas coifas de plumas e de frutas tropicais.

              Em 1637 pela primeira vez, em toda a America, do Alasca a Patagônia, um nobre de linhagem real coloca os pés no Novo Mundo. A grande comitiva de um conhecido e poderoso Conde, aquele que se tornaria mais tarde Príncipe de Nassau-Siegen, Johan Maurits van Nassau-Siegen (1604-1679), se estabelece no Brasil de 1637 a 1644. O “stadtholder” van Nassau para registrar as realizações de seu governo procura preservar em imagens a paisagem e a topografia da conquista, bem como os feitos militares e a arquitetura militar e civil do Brasil, e assim trouxe um grupo de estudiosos para realizar um grande levantamento visual do Brasil, para que no seu retorno servisse de divulgação, e o que efetivamente aconteceu, sendo publicados livros a seguir ao seu regresso, adquirindo muita notoriedade.

              Na sua equipe havia dois pintores com a tarefa de realizar uma extensa iconografia do Brasil, Franz Janszoon Post (1612-1680), pintor paisagista e Albert Eckhout (1610-1666), encarregado de retratar figuras de nativos, habitantes do Brasil e originários da África, vegetais, animais, naturezas-mortas e outros trabalhos destinados mais à divulgação científica do que à decoração de ambientes. Assim em 1637 o Brasil, pela primeira vez (assim como e em toda América), foi pintado por um artista.

 

              O pensamento de Jean Calvin (1509-1564) é trazido pelo Conde Maurits van Nassau para o Brasil e na representação do universo “americano” pela pintura calvinista Deus está tão presente no trabalho de cavar a terra como na prática de ir ao culto. Com a primeira representação da pintura na America, este registro sob o olhar calvinista se realiza, se materializa e modela a concepção europeia sobre o modo de viver na America, pela sua primazia da imagem e assim produzindo um imaginário original, estabelecendo modelos estéticos e abstrações de comportamento na cultura dominante vigentes até hoje.

              Para documentar a natureza, Nassau contou com o traço seguro de Franz Post, que encomenda a ele telas sobre o Brasil e suas paisagens, e assim com estes quadros registros de dados muito importantes para a época, e tornar-se-á possuidor de um acervo notável e valioso através de imagens daquele mundo desconhecido. Franz Post acredita-se, segundo especialistas, que tenha pintado em torno de 15 grandes telas durante sua estada no Brasil para o Conde alemão, que com elas decorava sua “mauritiushuis” brasileira, e no seu regresso Post na Holanda pintou mais dezenas de telas a partir dos estudos e esboços feitos no Brasil.

              O outro pintor, Albert Eckhout, desenhista, artista plástico e botânico holandês, acompanhava a equipe de “registradores”, é autor de notáveis pinturas do “Brasil Holandês“ envolvendo a população, os indígenas e paisagens da região Nordeste do Brasil. Oito de seus desenhos originais foram presenteados (1679) por Nassau ao rei Luís XIV da França que, mais tarde foram levados para Versailles, e mais adiante a manufatura de tapeçarias dos Gobelins, que os reproduziu na série peças denominados de “Les anciennes Indes”, que se tornaram muito populares no século seguinte.

              O Calvinismo do Conde alemão se caracteriza como um extremo e profundo conhecimento da Bíblia, que pondera todas as suas ações pela sua relação individual com a moral cristã. Neste universo calvinista de conceitos e regras, Albert Eckhout retrata seus personagens, solitários, que ocupam exatamente o centro do espaço pictórico e parecem fitar, face a face, o espectador. Com uma obra de grande interesse descritivo, retratou os primeiros habitantes do país, entre os quais mulatos, mamelucos e negros, sendo o quadro “A dança dos tapuias”, considerado por muitos como sua obra-prima, foi a obra de Eckhout que mais chocou o público europeu. Nunca havia se visto nos salões europeus uma representação de um mundo desconhecido com um olhar tão “fotográfico”, acentuado realismo e uma extrema “presença de realidade” com personagens completamente exóticos. 

              A enorme tela (170 x 300 cm) revela oito índios dançando, observados por duas índias. As grandes dimensões da tela não eram comuns para este tipo de temática. Além disso, a dança era reprovada pelo calvinismo e a nudez dos corpos tão fora dos padrões renascentistas fizeram com que a pintura não fosse aceita. A dança trata da preparação para o confronto com o inimigo e é realizada por oito índios Tapuia. Os índios dançam para guerrear, enquanto as duas índias não integram o círculo da dança. Mais envolvente ainda, nesta pintura, é a concepção de movimento, que o pintor elaborou com extrema habilidade. Há um equilíbrio e uma harmonia de pernas e braços que formam um encadeamento sugestionável de ação. As lanças no alto e uma das pernas sempre flexionadas são fundamentais para a transmissão da vitalidade representativa desta cena.

               A apropriação das imagens sob a visão calvinista cessa com a partida do Conde Maurits van Nassau mas a explosão midiática na época que se sucede, com o retorno da comitiva com seus dois pintores e mais as informações coletadas e ilustradas, se transforma num grande sucesso, estabelecendo símbolos e signos sobre a sexualidade “americana” que remontam até hoje.

   O Conde abandona o mapa do território e com ele o mapa do território do imaginário europeu e o Trópico dos Pecados retoma seus ciclos evolucionistas lusitanos sob a família Bragança. Tudo volta a ser como era antes. Desaparece o olhar calvinista.

Como uma pintura podemos nos permitir a pensar uma cena hipotética em que os seguidores de Vidal de Negreiros, Felipe Camarão, Henrique Dias e Fernandes Vieira, momentos após a Segunda Batalha de Guararapes em 1649, reunidos na praia,  os vitoriosos católicos olham para o horizonte, sorridentes e felizes, onde as caravelas dos neerlandeses levando embora o Calvinismo,  aparecem com suas velas voltando para sua terra natal e de onde jamais retornariam.