Djine Klein

Autora

I. Quando um raio cai bem na tua cabeça

 

Em 1992 chegava a São Paulo para estudar, logo na primeira manhã ao cumprimentar os funcionários da portaria senti um estranhamento, como se eu cometesse algum desvario, uns baixaram a cabeça, outros me olharam com espanto. Nos dias seguintes continuei cumprimentando-os e notava neles uma espécie de desconfiança. Então me dei conta, eram todos nordestinos, assim como na padaria, farmácia, posto de gasolina, etc.

E logo sou informada de que “Aqui no Condomínio não cumprimentamos funcionário, isso seria dar-lhes intimidade, talvez alguém já se atreveria a contar alguma história”.

Contar uma história?  E por algum tempo fiquei apenas em perplexidade. Então é assim, só trabalha, trabalha, nada de dar-lhes função outra, é abrir-te a porta, tirar o lixo, limpar o chão que pisas. E foi que comecei a desconfiar de mim.

 

 

II. Confirmado o que dissemos acima, e tem mais...

 

Sempre gostei muito de ler, palavras no papel o pensar vai além e eu indo para bem longe, buscando outros que eram de vir, como eu em barcos de papel, para mais sólido se situar no mundo. Então não conseguia conceber a ideia de que houvesse ainda analfabetos. E que desafino entre as contrapartes, as gentes e a mesma nação, uns empoderados de palavras, outros a fome. 

 

Embarquei em desafio, queria alfabetizar, queria uma biblioteca para estimular.

 

Em 1996 fundei a Biblioteca “Ronda” no Condomínio Rembrandt, em São Paulo, nesse projeto trabalhei por seis anos e oito meses, e quando voltei para Porto Alegre, deixei-a nas mãos de um menino.

 

E por todo esse tempo, alfabetizando um funcionário ou ajudando as crianças, foram muitos deciframentos. E estimular a leitura, o gosto pelo que via acontecer, isso tomou conta de mim e logo comecei a contar histórias, mas ainda de forma intuitiva.

 

Com o excedente de livros, levei-os para uma comunidade rural, em Seberi/RS, também doava para pacientes em hospital ou pessoas que não tinham acesso a livros.

 

 

Em 2004, de volta a Porto Alegre, trabalhei como voluntária no Hospital de Clínicas, por mais de três anos levando o livro ou dizendo poemas para pacientes que ficavam muito tempo hospitalizado.

 

Em 2005 ingressei no Projeto Abrindo Horizontes, na CCMQ, por dois anos e oito meses ali trabalhei com meninos de rua, ou jovens de projetos da Prefeituras de Porto Alegre, levados para as oficinas na casa.

Em 2008 fundei uma biblioteca comunitário em Viamão, dentro de uma Associação de moradores, e aí permaneci por dois anos e meio.

 

Em 2010 fundei a “Bibliô-Andarília, sendo que nesse projeto o acervo de livros fica na minha casa, e os livros vão em sacolinhas para famílias.

 

Em Viamão sou integrante do Fórum Permanente de Cultura, ALVI e Conselheira de Cultura (por dois anos), na cidade sou ativa em eventos culturais, contando histórias ou fazendo performance com poesia.

Em Porto Alegre, desde 2008 faço parte de um grupo que trabalha só com performances com textos poéticos, o diVersos e no grupo apenas eu conto histórias. Fizemos apresentações em eventos culturais e instituições públicas e particulares.

 

III. “A função de um contador...

 

É andar pelas estradas...” E ando desde 2008, como contadora independente, mas desde 1990 em função do livro. Às vezes surgem alguns desafios em grupo. E à andar pelo mundo com a cabeça cheia de histórias, e o coração contente por já ter na bagagem muitas diversas vivências, com o livro na mão, ou que o conto sai da boca, palavra puxando palavras. Tudo embalado de emoção. Assim sigo para cada novo desafio quando me chamam. Em Curitiba realizei oficina para aspirantes a contador.

 

Hoje conto histórias e poemas em prosa, em festivais de contadores, em escolas, condomínios, praça pública, bibliotecas, feira de livros, e etcs. Mas a experiência mais inusitada foi se transformar em um livro: Feira do Livro de 2014, projeto da Aliança Francesa, “O livro Vivo”.

Fui consultora para a primeira FLIS (Feira literária de Seberi) que teve um resultado inesperado: muitos municípios da região, lotaram ônibus e enviaram seus estudantes, em cada canto da praça, três dias, havia alguém contando uma história ou resgatando brincadeiras antigas, e uma plateia de coração puro, pois nunca tinham visto festa assim, o livro como personagem, os contadores como agentes de magia.

No ano passado fiz a hora do conto numa escola em Alvorada, Projeto Mais Cultura, na Padre Leo e esse ano fui chamada para a 11º. Do Livro.

 

E para concluir, os contadores independentes, em geral são mais lúdicos, e são muito necessários nas periferias, onde estão escolas e comunidades não tem acesso aos eventos de literatura com estímulo a leitura.

 

IV. Sobre o Jardineiro

 

Desejei escrever uma história para ser publicada e que eu pudesse conta-la, assim como tenho contado os contos de muitos autores. Estava me propondo esse desafio, isso porque gosto muito de contar/cantar textos autorais, com linguagem que assume liberdades, numa prosa flertando com a palavra da poesia.

 

A paisagem para essa primeira saga, meu conto/poema tinha que ser o Sertão Nordestino, e precisava acontecer numa linguagem que soubesse nascer daquela terra. Eu tentando adivinhar as falas, fui narrando para o ouvido talvez acreditar. Assim foi que nasceu “Dário”, menino de agrestes, paisagem que eu já tinha muita notícia, vinda das pessoas que de certa forma me encaminharam para atividade de ser uma Contadora de História. E talvez, talvez uma autora. Foi tanta a insistência que hoje já me atrevo a contar esse conto para quais me dão ouvidos, e que então fico de contentamentos com eles.

 

O livro ficou bonito preto no branco, e o Cloveci Muruci o ilustrou bem do jeito que eu desejava, as imagens insinuando-se como a vir com lembrança de um cordel. Tal o jeito que quando eu escrevia o texto pensava nas baladas e literaturas longe de escolas, só a fala doméstica sem a rigidez do dicionário. E meu amigo João também adivinhou assim.

 

E verdades para serem bem-ditas, os que escrevem inventando e os que se contam para praticar o conhecimento. Homens-meninos e mulheres loucas, as pessoas...Todos os que sabem sonhar e se encantar com uma história, é porque no fundo do ser ainda habita uma criança. Afinal, e os contos são para embalar todo tipo de infância. E são eles os que escutam, os que mais nos ensinam a ser poeta. Então quero ser sentindo e vendo as expressões, e mais aprender com as gentes. Principalmente, aquelas que sabem o pé na terra, de palavras poucas, mas gordas de poesia. Palavras nascidas de longa gestação, silêncios e sujas de pó que é vida em movimento.

 

Contatos

djineKlein@gmail.com; www.facebook.com/djineklein

 

Obs: Há mais de três anos sou colaborada do Jornal de Artes, como Editora de Literatura, e aí publico poesia em prosa, mensalmente. 

Jornal de Artes: www.murucieditor.com.br/#!jornal-de-artes/xwhj2