Gerson Dias de Oliveira

Autor

Por Djine Klein 

Quanto de infância há nessas narrativas - "os primeiros escritos se perderam, mas possuíam a idade de minha infância. Foi lá quando comecei a ler os livros de meu pai, e copiava tudo que podia em um caderno, depois ficava a ler antes de dormir". Assim, que o exercício vem sendo praticado há mais de sessenta anos.

 

As aventuras dos livros depois eram reproduzidas nas brincadeiras da meninice, principalmente os duelos de espadas. E aconteceu que os dois, o pai operário dono de uma biblioteca e o seu menino, que ao se tornar um adulto também se tornaria um operário, na antiga Varig,  tocaram a vida, ou foram sendo tocados por ela, a começar pelos livros.

 

A mãe é apresentada como uma mulher pequena, delicada e forte, que jamais gritava com as crianças. Mas sabia fazer valer sua autoridade. "Ela cantava e sua voz afinada, se ouvia pela casa cantando hinos religioso". Certa vez, ao se deparar com o menino que sofria as primeiras dores de amor, com sobriedade explica, "elas são diferentes, tem um universo próprio e cabe ao homem aceitar e assim será feliz com elas".

 

As brincadeiras da infancia ajudaram a fortalecer os laços de confiança e amizade; a compreensão, a aceitação do outro, apesar que esse outro é sempre um mistério, são os ensinamentos recebidos da mãe. E ainda aqueles jogos funcionaram para a formação do caráter de um ser. Assim , o herói nessa história de vida foi o Livro, mas a musa foi aquela das canções.

 

Hoje é o tempo em que  homem se debruça, e as páginas brancas logo vão sendo preenchidas com histórias de vidas, e cada personagem recebe o seu quinhão de ternura. E o poeta ri e chora com elas. Ainda, para quem se dispõe a conhecer o intenso exercício de sua pena, logo verá que, os homens são frágeis, as mulheres são como deusas.

 

– O sanfoneiro

 

O Gerson se diz um tímido e isso vem da infância, uma criança introspectiva e os livros sendo a sua toda e absoluta independência. Começou com poemas em verso, hoje a produção dá prosa.

 

Sobre a necessidade de se expressar através da escrita, "É algo assim, eu lembro de escrever para os outros e até ganhava um dinheirinho com isso. Escrevia as redações dos colegas de classe. Meu pai preocupava-se comigo, porque eu não pegava em ferramentas, andava sempre envolvido com os livros, lendo e escrevendo. Ele era um operário e fazer algo com as mãos, e que fosse visível, significava trabalho".

 

Assim que as memórias de infância, as próprias e as um tanto inventadas, são a matéria para suas narrativas. Escrever contos, crônicas ou aquelas narrativas lá do livro: O Fazedor de Humanidades, é voltar para saciar velha sede, e o poeta registra para compartilhar.

 

"Eu sou feito um sanfoneiro, toco de ouvido". Diz rindo ao ser chamado de escritor.

 

 

 

- Infinitos & transitivos

 

"O corpo vivo é a dimensão que mais existe para as memórias de existir". E isso vale também para o ato de escrever, afirma o poeta. "A consciência da transitoriedade do corpo/alma também tem relação direta com os conteúdos da escrita. A espiritualidade é tudo que transcende a realidade palpável". Então podemos pensar que escrever é um exercício de compaixão, o poema pode ser uma oração.

 

Os personagens também devem ser aceitos como nos chegam, como se fossem pessoas de carne e osso: "assim que escrever é exercício de humanidade, ou melhor dizendo, é uma atividade apenas humana".

 

"A certeza do ocaso me instiga a buscar a vida, a ser melhor, a conviver com as pessoas ou estar só, a ter paciência com o outro, e comigo mesmo". O outro é um mundo a ser descoberto, então narrador, narra a dor. Mas também alegrias, as descobertas de amor, vida pulsando e a morte.

 

A morte essa absoluta perplexidade, é apresentada de forma poética, experiência que deve ser vivida com sobriedade, não drama. Então vale falar dessa absoluta desconhecida em língua de poesia.

 

A felicidade é algo particular, sem dúvida é quando estamos equilibrados. Espaço de felicidade, é estar em sintonia e sossego, mesmo sabendo que a qualquer momento da vida podemos nos deparar num enfrentamento. Já a solidão é uma tragédia, talvez por ser causada pela incapacidade de se ceder espaço ao outro, e de conviver no espaço alheio.

 

" As pessoas me comovem - não há nada melhor do que conviver, mesmo sabendo que tudo possui seu preço, e que o riso de hoje poderá ser um rosnado amanhã. Família, amigos e desafetos, tudo é emoção. Para tudo isso há os segredos, e eu sou assim, nem me revelo com esses devaneios precários, comovido diante da complexidade da vida". O anseio é por relacionamentos mais amistosos entre as gentes, preocupa-se com esse tema, a incapacidade de as pessoas se aceitarem, cada qual com suas particularidades.

 

Ser pessoa, gente, é ter fome - O homem tem necessidades que vão além da compreensão. As necessidades, vontades, é porque há vida. E vida é conviver, e estar com os outros é estar no Mundo. Se ficássemos absolutamente sós estaríamos mortos>. Mas como nem sempre temos a nossa disposição o outro, então inventamos, escrever é também dar forma as coisas do desejo.

 

" Mas do que mesmo que falávamos...".

 

– Delito e Música de Água

 

O Gerson foi um dos fundadores do Grupo Arte da Fundação Ruben Berta, em Porto Alegre e foi com o apoio dessa que conseguiu publicar seus primeiros livros.

 

Sua juventude aconteceu num tempo em que os jovens eram constantemente vigiados, lhes tiraram a voz, e para se expressar foi necessário buscar outros caminhos, praticar alguma arte, quando tudo é delito resta a poesia.

 

A poesia em Delito, 1992 (Editora Tchê) é exatamente isso, delito. Algum tempo depois aconteceu de publicar Música de Água, 1998, também pela Tchê.

 

Agora com O Fazedor de Humanidade (Muruci Editor), resgata velhas experiências, se descobrindo em novos desafios. É como a voz do tempo.

 

E ele confessa: "Adoro minha aposentadoria". Isso é, ter mais tempo para debruçar-se sobre as questões de seu maior apresso, o ser humano. E o que começou sendo traduzido em versos, hoje os poemas tem um tempo mais espichados, escritos em prosa.

 

Quanto ao lirismo isso não muda, afinal o homem é o filho do menino, e que traz vivo um tempo de inocência.