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Em sua obra Olhando para outro oceano, Philippe traz elementos que abordam as constantes aflições de almejar estar em outras terras e de lidar com aquilo que acabou por deixar para trás. A cultura haitiana perpassa seus poemas ao tocar na história de lutas do seu povo, na caracterização de uma cultura de perseverança e resiliência – não deixando de abordar aspectos difíceis da vida no Haiti e como isso o trouxe a buscar uma nova vida no Brasil. A leitura do trabalho de Chidelson Philippe é enriquecedora, assim como tê-lo como colega de estudos e pesquisa.

Em Olhando para outro oceâno, na raiz deste jovem escritor, como na da grande maioria da população haitiana, está semeado um poliglotismo obrigatório em função da existência de uma da língua identitária nacional, o crioulo, fruto da mistura da língua nativa dos escravos africanos, para lá levados à época colonialista, com os idiomas dos colonizadores, em especial o francês, o qual se tornou a língua oficial haitiana. Então, em versos que aqui estão, ele pergunta: Será que o Haiti é um país pobre, ou empobrecido?.

 

Entretanto, rapidamente me chamou atenção em sala de aula, além da presença sempre doce e do jeito absolutamente polido de lidar com as pessoas, a capacidade deste meu amigo de construir versos no novo idioma. Isto ocorria mesmo que estivesse recém conquistando terreno em uma gramática que ainda desbravava, de posse de vocabulário reduzido típico de um aprendiz. E isso pouco importa pra ele, pois Chidelson é – como bem descreve – essencialmente o “dono de uma caneta impaciente”, a qual fala “o que passamos e o que eu passei/Mas até o que eu não sei/ Porque ela tem a sua própria lei”.

 

De fato, percorrendo as linhas da caneta impaciente nesta coletânea do poeta haitiano, na minha língua materna recebo uma aula de história, amor e política em sua pluralidade, a marca registrada deste futuro diplomata que se recusou a esquecer a sua terra e seu amado povo, o qual já venceu o exército de Napoleão Bonaparte e hoje – para surpresa minha – sonha em visitar o Brasil. Encanta-me seu orgulho de ser “nèg mawon”.

Paralelamente, além de ser uma ode à pátria haitiana, sem deixar de tecer críticas contundentes ao país, este livro tece um retrato da sensibilidade que frequentemente nos falta em relação ao mundo e às suas demandas políticas e sociais, bem como afetivas. Entre os poemas de Chidelson, visitaremos inúmeras abordagens que, mesmo íntimas e autobiográficas, de forma contundente falam das duras realidades de muitos e muitas: da condição dos imigrantes em um mundo nativo, da xenofobia, da situação política no Brasil, do racismo, do machismo, da pandemia, cujo vírus ele teve de enfrentar, e dos sistemas de saúde de nossos países, que infelizmente reforçam a desigualdade social em seu atendimento.

Contudo, como bem canta este pungente e paradoxalmente delicado poeta, nós vemos as coisas como nós somos e não precisamos muito para ser felizes; por isso com certeza o destino ainda precisará de mais da sua tinta para escrever o futuro, seja na caminhada da diplomacia, seja na poesia!

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O Autor - Chidelson Philippe

Chidelson Philippe nasceu em 1997 em Marchand Dessalines, primeira capital do Haiti e dos negros. Antes de deixar seu país, ele era jovem voluntariado na ONG Save the Children pela sua cidade nativa. Chegou ao Brasil em dezembro de 2016 e começou a estudar a língua portuguesa enquanto estava no terceiro ano do ensino médio em 2017, ou seja, ele se formou no Brasil. Philippe sempre sonhou em ingressar na faculdade pelo mesmo curso, então resolveu também fazer o Enem em 2018, tirando uma nota de 580 na redação.

 

Atualmente é secretário da Associação da Integração Social, conhecida como, Associação dos Haitianos, e está estudando Relações Internacionais na UFRGS, conseguindo ingressar através do vestibular especial. Ele faz parte do Bará – Programa de Acolhimento de Estudantes Refugiados e Portadores de Visto Humanitário, e do NEPEMIGRA – Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Migrações da UFRGS. Também fala três idiomas fluentes: Crioulo haitiano, Francês e Português e dois dois intermediários que são inglês e espanhol. É professor de francês na Escola de Idiomas Language e intérprete junto com a TJRS.

 

Philippe começou a escrever poesias em crioulo, francês e inglês, admirando o poeta, advogado haitiano Etzer Vilaire e o escritor Dany Laferrière que recebeu o prêmio Médicis pela academia francesa em dezembro de 2013. Philippe estava estudando em uma das melhores escolas públicas do Haiti que tem justamente o nome de um dos poetas mencionados, Etzer Vilaire. Logo que chegou ao Brasil continuou a desenvolver seus talentos. Sua primeira grande participação declamando poesias foi num concurso de slams no estádio de Internacional de Porto Alegre. Apaixonado pelo Brasil, ele não foi um dos vencedores, mas não abandonou seu amor à escrita.

 

No ano seguinte participou do concurso “poemas no Ônibus e no trem” organizado pela secretaria municipal da cultura de Porto alegre, e foi um dos vencedores com o seu poema intitulado “Evitar excesso”. Além disso, Philippe escreveu esse livro de poemas o qual é considerado por ele uma enorme aprendizagem.

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