A negação da mulher na pintura

A dívida histórica

Judith decapitando a Holofemes, de Artemisia Gentileschi

Floren de Bas

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          O objetivo do artigo é mostrar o quanto as mulheres foram desrespeitadas ao longo da história da arte através do pensamento dominante patriarcal. E com isso, afirmar o que foi negado às mulheres até os dias de hoje. É no frigir dos ovos que provoco a reflexão, isto é, “vamos colocar fogo no mar?”

            Não sei se escreverei de forma qualificada, pois não sou especialista em arte, principiante, seria a palavra certa. A análise abaixo foi composta a partir do documentário “Mulheres Pintoras, Quatro Séculos de Luta” (BBC 2015), de artigos e, a partir da minha própria experiência junto a natureza e com a vivência com outras pessoas ligadas ao mundo da arte.

            O documentário acima citado, da diretora Manuelle Blanc, revela a luta e a trajetória de artistas como Artemisia Gentileschi e Rosa Bonheur. Apesar das mulheres estarem ausentes nos livros de arte, nos museus, em nossos imaginários, elas sempre participaram da criação artística. Enfrentando as proibições e preconceitos das épocas, algumas delas chegaram a ser famosas. A história oficial não as reconheceu, porque a cultura dominante sempre tem se demonstrado machista e isso tem se expressado em todos os lugares, classes e grupos. Com certeza sendo pior ainda para as mulheres negras, lésbicas e/ou pobres. Há, ao longo do “tempo e do espaço”, um 'ocultamento' e um 'silenciamento' das mulheres que tem sido rompido com muita luta e sofrimento apesar da mulher ter sido considerada 'inferior' por grandes filósofos, pensadores, políticos, cientistas e outros homens. Claro, para se afirmarem, precisavam negar, ocultar, silenciar, matar a mulher, que não tinha como se expressar (principalmente publicamente), sendo mantida como 'recatada ' e 'do lar'.

             Você não sabe quem são Safo, Artemísia Gentileschi e Rosa Bonheur, Guda, Clariçia, Iaia de Cisicus, Hildegard von Bingen, mas reconhece os nomes Leonardo da Vinci e Paul Cezanne?

            Na antiguidade não há registros individualizados, mas na Grécia surgem os primeiros registros de algumas mulheres pintoras como Aristarete, Eirene e Calypso, enquanto na Roma do século I a.C., Iaia de Cisicus (“Marcia”), filha do filósofo Marco Terêncio Varrão, se destacou como pintora.

            Somente a partir de meados do século XVI algumas mulheres, num contexto muito difícil, conseguiram desenvolver alguma atividade artística já como profissionais. Caterina van Hemessen (1528 - 1587) foi um desses casos. Pintora flamenga a quem se atribui a criação do primeiro autorretrato de um artista, de qualquer sexo, sentado ao cavalete. Outro caso foi o da italiana Sofonisba Anguissola (1531 – 1625), a primeira artista do Renascimento a adquirir fama internacional. Pela mesma época, em Itália, Lavínia Fontana (1522 - 1614) fazia carreira a pintar retratos da alta sociedade bolonhesa. Fez sucesso em Roma e sua obra é a maior de uma mulher artista antes de 1700.   

            Durante séculos, muitas mulheres tiveram de lutar para encontrar o seu caminho nesta área. Artemisia Gentileschi foi forte o suficiente para enfrentar muitos obstáculos e, eventualmente, ser reconhecida pelos seus “pares masculinos”. O talento de Angélica Kauffmann permitiu-lhe, em primeiro lugar, ser admitida na corte real de Londres, e tornar-se uma dos fundadoras da Royal Academy of Arts. Suzanne Valadon teve talento e coragem suficiente para desafiar a imagem do corpo feminino nas belas-artes.

            Na Holanda destacaram-se Clara Peeters (1594 – 1657) e Judith Leyster (1609 - 1660), e Rachel Ruysch (1664 – 1750). Na Alemanha, Maria Sibylla Merian (1647 - 1717).

         No século XVIII a direção dos trabalhos das mulheres seguiu o da arte em geral, mudando do barroco ao rococó e ao neoclássico, onde destacaram-se Madame de La Fayette e Madame de Stäel, e onde Elisabeth-Louise Vigée Lebrun (1775 - 1842), pintora da corte de Maria Antonieta, pintou a aristocracia daquela época; Rosalba Carriera (1675 – 1757); Maria Verelst (1680 – 1744) e Angelica Kauffman (1741 – 1807) também se destacaram.

            Destes anos para cá entram em cena pintoras dos Estados Unidos, do Canadá, Inglaterra, Noruega, Suécia, Áustria, Alemanha e, claro, da França. Foi o caso de Rosa Bonheur (1822 - 1899), artista famosa que não hesitou em trocar as roupas de mulher pelas de homem para transpor obstáculos e ganhou muito dinheiro com a sua pintura. Louise Abbema (1858 - 1927), pintora gravadora e escultora que se tornou famosa aos 18 anos pelo retrato que fez da atriz Sara Bernard.

            Mary Cassat (1845 - 1926), uma americana que foi esposa de Degas, e Berthe Morisot (1841 - 1895), discípula de Manet, são duas pintoras impressionistas muito elogiadas e apreciadas que mereceriam outra visibilidade na história da pintura daquele período.

            Destacam-se ainda outros exemplos de mulheres que abriram caminho no mundo das artes, tais como Mary E. Dignam (Canadá, 1857 - 1938); Helen Allingham (Inglaterra, 1848 - 1926); Elizabeth (Thompson) Butler (Inglaterra, 1848 - 1933); Harriett Backer (1845 – 1932); Tina Blau (Áustria, 1847 - 1916); Hermine von Preuschen (Alemanha, 1854 - 1919); Louise de Hem (Bélgica, 1866 - 1922); Olga Lagoda-Shishkin (Rússia, 1850 – 1881).

            Algumas mulheres impuseram-se no mundo da arte do século XX por força do seu talento e, por vezes, fortes personalidades e naturezas transgressoras como Frida Kahlo (1907 – 1954); Georgia O´keefe (1887 – 1986); Tamara de Lempicka (1889 - 1980), nome artístico de Maria Gorska.

            Em Portugal, Josefa de Óbidos (1630 – 1684), Maria Helena Vieira da Silva (1908 -1992), e Paula Rego (Lisboa, 1935 - ), atualmente a pintora portuguesa de maior projeção internacional, são os maiores destaques na área.

            No Brasil, a conquista da igualdade começou com a Semana de Arte Moderna de 1922. Nela se proliferaram ideias anticolonialistas que permitiram refletir sobre a igualdade de gênero, raça e códigos culturais. A partir de tais ideias foi possível destacarem-se duas mulheres como as artistas mais importantes do modernismo brasileiro: Tarsila do Amaral e Anita Malfatti.

           

           Apesar do seu talento, as mulheres pintoras foram durante muito tempo ignoradas pelos historiadores de arte e ainda permanecem desconhecidas para o público, no entanto, esse cenário das artes vai ser modificado com muita presença feminina. Só para concluir: assim como a arte foi representada através dos tempos no pensamento dos homens, eis que agora o será pelo pensamento feminino. Esta é a dívida histórica que os homens terão de pagar pelos milhares de anos que nos silenciaram. Depois de estarmos extasiadas de gozo por nos vermos representadas pelas nossas obras, poderemos falar em igualdade.

Floren de Bas