Literatura | Poesia | Ailton Volpato

OS POEMAS DE AILTON VOLPATO

"e de estrela em estrela

o teu nome vaza"

escrevo com teu nome em cada letra. sombras e o ocultamento do sol nas nuvens . toda espera acende um campo ígneo corpo adentro. outra tarde incendiando ausências. com poemas.

Noite

Era noite quando tocaste em meu coração vibrante. como um símbolo, já não sabia quem tecera, um manto no tronco frágil da canção inteira. ensaio sobre ensaio, o rosto que reparo se esvai. mas, como o címbalo dos salmos, retines raro na retina ávida do escuro-claro (ardor e presença). se me ausento é por nadar rasamente no profundo. onde penso que estás.

Pentecostes

escorre o sereno noutra noite imensa. nós tão frios debulhando estrelas à distância dos dedos. Iluminados. tens-me tão perto quando as sombras me embebem. risíveis quedas no mesmo halo sombrio que cega. e sem medir nem pensar estendes o verbo luminoso no interior do meu corpo. resgate tão singelo como a chama de uma vela sobre o altar. e de estrela em estrela o teu nome vaza: sem eu perceber, faz de mim a tua casa.

Êxodo

os sinos soam no espasmo da noite. recordo os amigos na distância do som que ecoa. meus passos em vão conduzem ao centro mais terrível da estrada: o desejo do retorno. a terra prometida à frente submerge-se e o medo faz a sua morada. desvios, transvios. rasgo guias até arder a estrela. abro o livro enquanto os nomes pululam vivos - história escrita sobre o pó da terra passo a passo encadeado. recordo o sopro. e na flor que vaza a rocha, debruço-me em louvor.

espelho

 diante do espelho. as mãos como represa refrescam a face que se vê. múltipla e una. todo um percurso feito pelo tempo. marcas testemunham. novo é sempre o brilho no olhar. quando veem além.​

Cinzas

Escrevo em frágil superfície. Um poema marginal. Receoso do título, parte do fim de tudo. Tenho por olhar a doce figura do dia. Um pedaço de sorriso circunscrito na memória. Suficiente para jubilar. Louvo sereno o medo incerto, certo de que se deteriorá. Certo ainda de ser o caminho único. a se transfigurar.

Lavo os olhos. arrasto as travas formando um barco. Desço pelo mar das lágrimas, refletindo a tristeza das árvores desfolhadas.  nudez dos galhos em um coração nu. Vejo, à margem, as sombras da ausência, os rastros de outro barco, arrastado à força para o mar. um barco não feito para as águas: singra a terra com memórias.

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Ailton Volpato Rodrigues, natural da cidade de Jandira, São Paulo, vive em Curitiba, PR. Pertence a uma congregação religiosa, chamada Sagrada Família de Bérgamo. "Dedico-me desde 2012 à poesia e, por meio dela, à fotografia, como uma escola de visão, como uma maneira de habitar autenticamente e perceber o sagrado que constantemente se comunica, quando abrimos os sentidos. A literatura é uma paixão presente desde a infância. A escrita uma necessidade de esculpir no tempo sua transcendência. A imagem, sempre para além dela mesma, é a matéria a qual luto e amo, é vontade e repouso, voz e silêncio. Ambos são a mesma forma de dizer o que ainda escapa à secura dos dias."

Seus textos e fotografias estão, uma grande parte, presente no facebook: https://www.facebook.com/ailton.volpato e instagram - ailtonvolpato.

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