Al Berto, pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares OSE (Coimbra, 11 de Janeiro de 1948 — Lisboa, 13 de Junho de1997), foi um poeta, pintor, editor e animador cultural português. Existe uma escola secundária com o seu nome em Sines.

O ÚLTIMO CORAÇÃO DO SONHO

Al Berto

Pintura de Daniel Martin

Literatura | Poesia | Al Berto

conheci um homem que possuía uma cabeça de vidro.

víamos - pelo lado menos sombrio do pensamento - todo o sistema planetário.

víamos tremelicar da luz nas veias e o lodo das emoções na ponta dos dedos, o latejar do tempo na umidade dos lábios.

e a insônia, com seus anéis de luas quebradas e espermas ressequidos. as estrelas mortas das cidades imaginadas. 

os ossos tristes das palavras. 

 

a noite cerca a mão inteligente do homem que possui uma cabeça transparente.

em redor dele chove.

podemos imaginar uma chuva espessa, negra, plúmbea. 

depois, o homem abre a mão, uma laranja surge, esvoaça.

as cidades (como em todos os livros que li) ardem, incêndios que destroem o último coração do sonho.

mas aquele que se veste com a pele porosa da sua própria escrita olha, absorto, a laranja. 

 

a queda da laranja provocará o poema?

a laranja voadora é, ou não é, uma laranja imaginada por um louco?

e um louco, saberá o que é uma laranja?

e se a laranja cair? e o poema? e o poema com uma laranja a cair?

e o poema em forma de laranja?

e se eu comer a laranja, estarei a devorar o poema? a ficar louco?

e a palavra laranja existirá sem a laranja?

a a laranja voará sem a palavra laranja?

e se a laranja se iluminar a partir do seu centro, do seu gomo mais secreto, e alguém a esquecer no meio da noite - servirá o brilho da laranja para iluminar as cidades há muito mortas?

e se a laranja se deslocar no espaço - mais depressa que o pensamento, e muito mais devagar que a laranja escrita - criará uma ordem ou um caos?

 

o homem que possui uma cabeça de vidro habito o lado de fora das muralhas da cidade.

foi escorraçado.

e na desolação das terras, noite dentro, vigia os seus próprios sonhos e pesadelos, os seus próprios gestos - e um rosto suspenso na solidão.

 

onde mora o homem que ousou escrever com a unha na sua alma, no seu sexo, no seu coração?

e se escreveu laranja na alma, a alma ficará mais saborosa?

e se escreveu laranja no coração, a paixão impedi-lo-á de morrer?

e se escreveu laranja no sexo, o desejo aumentará?

 

onde está a vida do homem que escreve, a vida da laranja, a vida do poema - a Vida, sem mais nada - estará aqui?

fora das muralhas da cidade?

no interior do corpo? ou muito longe de mim - onde sei que possuo uma outra razão... e me suicido na tentativa de me transformar em poema e poder, enfim, circular livremente.

 

escrevo-te a sentir tudo isto

e num instante de maior lucidez poderia ser o rio

as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da fotografia

poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto ao fogo

e deambular trêmulo com as aves

ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios 

poderia imitar aquele pastor

ou confundir-se com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a sua imobilidade

 

habito neste país de água por engano

são-me necessárias radiografias de ossos

rostos desfocados

mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos

repara

nada mais possuo

a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã

repara

como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar.