Imagem | Fotografia & Literatura | João Clauveci Muruci

Livro de Fotografias

de João Clauveci Muruci

Fotografias que farão parte do livro de fotografias de Clauveci Muruci a ser publicado em 2018

Prefácio do livro

Se alguém buscar por fotografia de alta qualidade técnica ao folhar essas páginas, certamente não irá encontrar. Fotografo o cotidiano urbano com a visão autoral, tudo, ou quase tudo que as ruas me propõe. Trabalho  com o efêmero, a singularidade de um olhar, o gesto inacabado de quem está prestes a perder o coletivo. A indecisão de escolher um bom filme para encurtar a tarde, e,  para esses assuntos nem sempre é possível regular a luz, o foco e a velocidade do diafragma.

Penso que a fotografia perfeita não existe, e sim aquela que induz a leitura múltipla, mesmo que esteja inundada de escuro, mal mostrando um olhar aflito. Às vezes, não há tempo para compor o assunto dentro dos parâmetro que manda o manual, ele vai se dissolver no próximo instante. Prefiro o realismo mágico que se insinua quase invisível ao olhar daquele que caminha apressado. Minha câmera desconhece exatidões, mas reconhece entre sombras e luzes, a atmosfera que antecipará o gesto, o qual nunca mais vai se repetir. Prefiro o caos à foto monumental. Fotografo sombras que ninguém presta a atenção; um risco nervoso de giz na textura do muro esburacado, o café fumegante na xícara ainda em movimento.  Prefiro o olhar indagador de uma criança no carrinho de lixo, ao por do sol entre nuvens na linha do horizonte.

Meu tema é o que se insinua na cidade cinzenta; a torre da igreja envolta por espinhos de cactos.

Escolho a dramaticidade latente, que acompanha o cotidiano dos que passam apressados e despreocupadamente vivos.

 Pernas pro alto

À Manoel de Barros - Não há café? O lugar está ao avesso. Minha cena foi roubada. Cadê as vozes arrepiantes, os discursos vazios, os gestos ao ar, os risos escárnio, os fumantes, as garçonetes morenas, os pedintes ingênuos. Ninguém apareceu hoje? Então fotografei ausências.

Esse guerreiro Angolano não estava pra brincadeiras. Quem tem medo de cara feia? Fiz a foto assim mesmo, na marra, depois do click vejo no que dá, pensei corajosamente. Me fingi de morto e não deu em nada. Gostei da imagem. Uma cena integrada entre  jovens comedores de lanches baratos no café da antiga estação dos bondes.

Já havia dado uma volta e meia no Mercado Público, em busca da foto ideal. Quase ia desistindo  quando a foto se apresentou. Fotografei a  dignidade no olhar ao meio do contexto adverso. Depois do click fui tomar café com a alma lavada.

Fiz a foto traiçoeiramente. Não importa,  o que vale é o resultado final.

Não respeitei o sono e tentei fotografar o sonho. Impossível, não regulei o diafragma na abertura correta.

O silêncio é dramático, o jogo mal começou. No «Sétimo Selo»,  a vida estaria em jogo, e aqui o que se joga?

Fotografia selecionada pelo projeto do Canal Arte 1, « Sétimo Selo»  Podia ser Ingmar Bergman» Moradores da Ocupação KUNA LIBERTÁRIA.

Me cortou o coração. Coitada! Esperou uma hora e meia  e ele não veio. Fiz a foto e sai de mansinho para não chorar também.

Numa esquina da Mauá flagrei trabalho escravo. Fiz a foto para provar. As gurias trabalham das oito as dezoito, sem salário, carteira assinada e plano de saúde. O Sindicato das Manequins de Plásticos deve ser formado só por  “pelegos”.

Da padaria pra casa tomar café preto com pão novinho da Cidade Baixa

Fotografia selecionada para o Catálogo do XXI­I Concurso Sioma Breiteman de Fotografia / Edição 2011 da Câmara de Vereadores de Porto Alegre.

Depois da foto, o blues me prendeu mais de hora em pé na calçada.