Literatura | Poesia | Jacques Roubaud

JACQUES ROUBAUD

RETRATO EM MEDITAÇÃO III

Adormecida de sua ausência absoluta          desperta na sua ausência intermitente
Seu blue-jean, seus seios, suas meias, suas nádegas, seu tênis
Isto é uma aventura sentimental
Corpo tão lindo: se por acaso ela gritava
Nada senão uma dor mental atravessando Paris deserta (agosto)
A música, imediatamente nua: sua blusa, seis seios, seu blue-jean, suas nádegas, seu tênis (brancos)
Docilmente, mas totalmente por acaso
Dormir, gozar, falar nua, talvez
Inaudível.

MORTA

Tornada idêntica.
Dizer de ti: dizer tudo nada.
Existindo no ao-menos-dois, visível desde um estado-de-coisas, a cada momento enfim nomeada, renomeada, bela, tal: mas não mais.
Não mais te nomeio senão como incolor.
Sem a reduplicação do real que suportava a designação.
Infinito tua nomeação pura, amor de longe, nem verdadeira nem falsa.
Desaparecida do exterior, das árvores formas vazias, dos ares, das chuvas.
Desaparecida do interior, do beijo, verdade vazia.
Desaparecida.

NÃO POSSO ESCREVER DE TI

 

Não posso escrever de ti mais veridicamente do que tu mesma.

Não que eu seja incapaz por natureza, mas a verdade de ti, tu a escreveste.

E porque escrevias para só seres lida morta, porque eu a li, tu morta, e feita minha, esta verdade é a mais forte de todas.

Não poderei ultrapassá-la.

O que detenho de ti, o que me concerne a mim só, não é da ordem da verdade mas da física :

Tocar desde os joelhos até a fronte, gosto de cerveja na língua, perfume nos braços, embaixo, visão e voz, de longe, me queimam : circuitos que não serão obliterados, não por enquanto.

Isso é só meu, e com razão.

Não escreverei de ti senão minha própria altura.

Ou então deito-me e faço sombra.

EM MIM

 

Tua morte não para de acontecer...............de se acabar.

Não...............tua morte.......morta.........estás..............não há nada a dizer............e o que?.........inútil.

Inútil o irreal do passado..................tempo inqualificável.

Mas tua morte em mim progride........lenta..........incompreensivelmente.

Continuo acordando em tua voz..........tua mão.........teu cheiro.

Continuo a dizer teu nome........teu nome em mim......como se estivesses.

Como se a morte tivesse gelado apenas a ponta de teus dedos apenas tivesse jogado uma camada de silêncio sobre nós..........tivesse parado diante de uma porta.

Eu atrás..............incrédulo.