Literatura | Poesia | Lucas Zaparolli

Lucas Zaparolli de Agustini

Do livro Pelo Andar do Dia (Lumme Editor)

Num sonho vi meu pai perdendo a voz

e estava deserto (a luz intensa

no amplo recinto fulvo se condensa

num negro dentro da garganta. Atroz

 

tom de miragem! Estas cores pôs

meu pai no céu da boca, sem licença

para seguir adiante, sem a imensa

vontade de viver. Lapsos de pós

 

impregnam o recinto, e algum relógio

derrete no deserto, enquanto foge o

Tempo, deus esguio. Abro a porta. Adentro

 

o recinto amarelo. Bem no centro

está meu pai, vou, nos abraçamos. E cá

dentro em meu sonho a dor desfaz-se em música.

***

Um dia o sol me pega em cheio em pranto

e o azul me parece pouco puro

e as névoas da alma engraxam meu futuro,

e é tudo gris – e a veia dói – conquanto

 

também existiam dias em que o encanto

me acalenta, e balança, e me seguro

no seu colo tão alvo, e então não curo

de nada que não seja amor ou canto.

 

Ah, arlequinal! tudo azul e gris,

é sempre chuva e sol no meu país,

é sempre a mesma coisa, noite e dia,

 

é sempre o mesmo interminável tédio,

e tenho para mim o melhor remédio

é ver cair tudo ao som da Poesia.

***

Eu tanjo um canto enquanto tu me tanges

enfeitiçado no teu rio de coxas;

em procissão de imagens vou com tochas

depor uns sons aos pés de ti, meu Ganges.

 

A fé, qual flores, deito em tuas falanges,

e a prece amortecida pelas rochas

só maravilhas diz: que desabrochas

num ser que é cristalino, e que me abranges

 

até que eu seja apenas teu, e tu,

observando as ruas, eu de peito nu,

eu perdido, eu sem pai, sem pão, de albergues

 

assíduo, tu me dás tua mão, e me ergues

de um chão de velas, mas meu vento acende, da

tua face, uma manhã de luz esplêndida.

 

***

A órbita dos sóis e astros toca um blues.

E o cosmos é um boteco em solidão.

E a noite é longa e fria. E tudo é vão

E nos poros de esquinas eu sou pus.

 

Nem a lua escarninha não reluz.

A névoa em rocio toma minha mão,

meu casaco e o conhaque. E vou-me então,

só, confiante na hora em que algum jus

 

fará o Olvido a este vagar eterno:

só galáxias escutam meu inferno.

Mil sereias que tomam-me de mim,

 

Com dentes de marfim, voz de clarim,

têm um colar onde uma concha luz. E o

cosmos lá se comporta como um búzio.

Lucas Zaparolli de Agostini publicou as Obras Completas de Delmira Agustini (2014). Faz doutorado na USP traduzindo o épico Don Juan de lorde Byron.