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Ao que não termina (sobreviver)

MICHEL DEGUY

Literatura | Poesia | Michel Deguy

Sobreviver a você não é evidente.

Viver esse sobreviver: uma tarefa, uma estranheza, um acaso, um motivo, um estupor, um remorso, uma injustiça, uma meditação, uma desproporção, um dever segundo alguns, um adiamento, uma preocupação.

O ser deslocado como um ombro acidentado, a pena redimida - dia após dia; a relação - a inventar, para unir, no sobre, a vida de ontem e a vida desertada: o estoicismo do suicídio ao final do calendário.

Não creio em nenhuma sobrevida exceto a que é a minha por hoje e que retoma a pena ao despertar: metempsicose fraca que transmite da sua vida desaparecida para a minha e traduz o que foi sua pena na minha como uma transfusão de dor. 

Não creio em nenhuma comunicação com os mortos exceto a que mantenho com sua impressão em mim, essa alma estrangeira que "vive em mim", essa outra verdade que "habita o homem interior", desalterando o ego e que o tornou hospitaleiro à alteridade. 

Não creio em nenhuma vida eterna, nunca nos encontraremos em lugar algum, e é precisamente nesse arrombamento do futuro que nenhum trabalho de luto preencherá que consiste a tristeza, esta tristeza que desaparecerá "comigo" por sua vez. Mas esses dias de tristeza sem fundo dos quais as páginas em paredes de papel simulam uma perspectiva são a "vida futura" onde me acompanha seu esquecimento: a interminável brevidade mudada em breve infinidade insta a eternidade.