Artigo | Psicanálise | Porto Alegre

ÓDIO E CONSUMISMO 

 

Por Anelore Schumann de Porto Alegre | [Psicanalista na Après Coup Sociedade Psicanalítica]

Constatamos no nosso dia-a-dia o aumento do chamado? “discurso de ódio”, ou seja, expressões que incitam, promovem e justificam ódio racial,?xenofobia ou qualquer outra forma de intolerância. Em março de 2016, a ONU divulgou uma nota sobre o aumento alarmante de casos de intolerância no mundo, manifestações racistas e violências causadas pelo ódio.


O ódio, na pós-modernidade, não se manifesta de forma inédita, é antes a facilidade com a qual pode se desencadear que lhe é específica, como se as barreiras que a cultura construiu, desde os primórdios da civilização, contra o gozo do ódio e sua satisfação, tivessem sido destruídas.   


A História Universal está repleta de relatos sobre matança de povos e revela que o ódio não está restrito a uma época específica. No texto “Nossa atitude perante a morte”, Freud diz que a ênfase da proibição “Não matarás” indica que somos descendentes de uma interminável série de gerações de assassinos. A investigação psicanalítica revela.que no pensamento inconsciente eliminamos todos aqueles que estorvam o nosso caminho, que nos ofendem e nos prejudicam, inclusive por ninharias. Pois, cada ofensa ao nosso todo poderoso e soberano eu é, no fundo, um crime de lesa-majestade e não aceita outro castigo senão a morte.


Nas antipatias e aversões indisfarçadas que sentimos por estranhos podemos identificar a expressão do amor a nós mesmos, do narcisismo. O ódio provém do repúdio primordial do eu narcísico para com o mundo externo, sendo uma expressão da reação de desprazer promovida pelos outros. Além disso, o ódio irá se manifestar de modo a constituir a oposição mesclada ao amor.  Se a relação com o ser amado for rompida, frequentemente, o ódio surgirá em seu lugar de modo que temos a impressão de uma transformação do amor em ódio.


As relações amorosas caracterizam-se por conterem uma mescla com o ódio, sendo que cada encontro não realizado, cada investimento não correspondido, cada demanda não satisfeita desponta o mais primitivo ódio.  Se o amor aspira ao ser do outro, o ódio quer o contrário, o seu rebaixamento, sua desorientação, seu desvio, seu delírio, sua negação detalhada, a sua subversão. É nisso que o ódio, como o amor, é uma carreira sem limite. Diferente das paixões, os laços sociais são tecidos e estruturados pela linguagem.  


No sistema capitalista, verificamos que o mercado oferece ao sujeito uma série de objetos para sua satisfação que cumprem a função de tamponar sua falta.  Zygmunt Bauman, no livro “Vida para o consumo: A transformação das pessoas em mercadoria”, diz que nos encontramos atualmente em plena “revolução consumista”. Passamos de uma sociedade de produtores para uma sociedade de consumidores, cujo valor supremo se encontra na perspectiva de ter uma “vida feliz”.  Essa busca da felicidade se caracteriza, muitas vezes, por uma demanda de felicidade instantânea e contínua, marcada pela urgência do “aqui e agora”.


Jean-Pierre Lebrun, psicanalista belga, disse numa entrevista para Fronteiras do Pensamento que “o homem contemporâneo não sabe o que é desejar, só sabe o que é consumir.”


O aumento da oferta de produtos na atualidade é fruto da exaltação do prazer a qualquer custo, em consonância com a lógica da sociedade de consumo que incentiva a aquisição e o descarte de bens. Inúmeros são os objetos elevados à condição?de portadores da solução contra qualquer tipo de sofrimento. Porém, esse modo de consumo desenfreado fracassa em sua função de garantir a felicidade. Isso porque os objetos escolhidos para tamponar a falta não sustentam essa função e o sofrimento retorna.


Jacques Lacan trabalha o conceito de discurso para dizer que ele deve ser considerado “como liame social, fundado sobre a linguagem”, ou seja, um laço que liga os seres falantes. Porém, nos alerta que em tudo que diz respeito à relação entre os seres humanos, que se caracteriza como coletividade, há algo que sempre escapa, pois a própria linguagem aponta para algo que resta de não-articulável na cadeia significante.


Uma das características do discurso do analista é ser o avesso do discurso do mestre, base do discurso capitalista. Ao oferecer sua escuta do sofrimento do paciente, supõe que o material que ele traz pela fala contém um saber. Desse modo, no decorrer do tratamento, o analista não se coloca na posição daquele que sabe previamente.  Ao contrário do discurso capitalista que rejeita a falta seguindo o modelo da perversão, o discurso do analista se sustenta na impossibilidade e reinstaura a verdade do sujeito.


Para a psicanálise o sujeito participa na criação e na manutenção do próprio sofrimento, sendo assim, propõe que o analisante possa construir um saber sobre o que lhe causa. Para tal, é preciso que se produza uma mudança de posição subjetiva que traga para o centro do tratamento o sintoma, como algo a partir do qual um saber advém. Esse modo diferente de tratar o sintoma marca uma das especificidades da psicanálise na abordagem do mal-estar, pois vai na contramão do apagamento da divisão subjetiva e da negação da mortalidade.


A proposta da psicanálise tem como condição a abertura do sujeito à responsabilidade por seu sofrimento e possibilita ao analisante efetuar uma transformação, de uma demanda de alívio para uma demanda de saber. Trabalha a partir de uma lógica diversa à do tamponamento ou do apaziguamento da dor de existir. O analista lida com o sofrimento de maneira distinta, pois, no lugar dos objetos de consumo ou de promessas milagrosas de autocontrole e felicidade, um psicanalista interpreta o desejo inconsciente de modo que a falta se evidencie, fazendo emergir o sujeito dividido, sujeito do inconsciente.


A partir desse momento o analisante poderá questionar seu sintoma, deixando-se intrigar pelo seu sofrimento.   No lugar de reclamar e posicionar-se como vítima, o sujeito passa a se questionar sobre o seu desejo.

«Garota Comendo Pássaro - O prazer» 1927, tela de René Magritte

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