Eta é engenheira mecatrônica. Se ela foi chamada para uma missão em busca de vida extraterrestre, ela deve seguir para o próximo parágrafo. Se não, segue na página, (*) onde ela se preparou durante meses para uma outra missão, onde investigavam a existência de um buraco negro em algum lugar do espaço.


Eta foi chamada, as pressas, para substituir um dos engenheiros mecatrônicos da nave Nemo XXL em missão pra Europa, uma das luas de Júpiter onde, acreditava-se, poderiam encontrar seus primeiros irmãos galácticos, alienígenas. Vida. Vida fora da Terra. Pelo menos em uma forma mais parecida com a de um ser complexo e não as bactérias de Marte. Talvez grande parte da vida no Cosmos se desse em outra frequência que os 7,23 da Terra. Mas os testes em outras frequências foram desastrosos até ali, 2135, com a radiação tendo erradicado metade da população cinquenta anos antes.

 

Alguns não acreditaram que era coincidência isso ter acontecido quando o sistema ia entrar em colapso por falta de energia. Porque só energia sustentável tinha sobrado. E sem um Estado, tudo o que as pessoas precisavam era obedecer a mãe terra. Nem precisariam deixar de adorar um deus pai, só não precisavam mais pagar um tributo ao deus dinheiro. Foi quando a explosão nuclear causada pela última guerra entre os homens permitiu que as coisas voltassem ao normal, fazendo com que alguns deles continuassem queimando petróleo e carvão por mais alguns anos, o que tinha atrasado a evolução humana, de novo. Mas, ainda que, lentamente, as coisas pareciam estar se deslocando para um ponto de virada. E, como o povo não parecia mais interessado em guerras e as pessoas estavam mais interessadas que os avanços culturais acompanhasse os avanços científicos e cibernéticos, a Nasa fazia essas missões.


Haviam, claro, as teorias da conspiração de que a Nasa não gastaria todos aqueles milhões, simplesmente, para descobrir novos seres vivos e eles estavam buscando fontes alternativas de água para a Terra, que, por mais caro fosse, praticava a dessalinização dos oceanos também há muito tempo. De qualquer forma, Eta, Charles e Miguel, os tripulantes da missão, nunca tinham pensado nisso. Charles era astronauta há dez anos e Miguel, o mais experiente trabalhava em missões daquela há, pelo menos, vinte.


Desceram e ficaram em uma geleira gigante, em meio a superfície lisa, branca: Europa era gelada, coberta de grossas camadas de água em temperatura negativa que chegava a cem graus negativos, era a Rússia sem Vodka, aquela Europa outra, pensou Charles. Nenhum álcool aqueceria o corpo fora da nave, cada segundo, fora dela, mesmo com a roupa térmica e protegida de astronauta, era difícil de não sentir o terror em cada centímetro de seus ossos. A atmosfera densa impedia movimentos bruscos e eles, lentamente, avançavam em direção aos primeiros passos daquela procura que, nos primeiros instantes, pareceria infrutífera. Embora, não pudessem ir pra muito longe da nave porque não podiam se distanciar do escudo de radiação massiva que ela proporcionava.


- Pelo menos, por hoje, não precisaremos fazer a caminhada espacial. - Eta tentou animar os companheiros, mas Charles e Miguel estavam preocupados com as sondas e o tempo que demorariam para perfurar a camada de gelo. Ainda não tinham encontrado o lado da lua que seria mais fácil de explorar e já estavam lá há cinco dias.


Depois de muito observar a visão estonteante que era Júpiter, imponente e pesado, quase se pensava como algo tão grande se mantinha no ar, sem falar em algumas de suas luas que apareciam, de vez em quando, como Io. Era lindo de ver.


Ainda assim, Eta não podia deixar de se sentir um pouco frustrada. Além dos incontáveis problemas que já tinham, a vida no espaço consistia, fora isso, de horas e horas flutuando entediada ou consertando coisas. Tudo corria nesse ritmo até que começaram a sentir o impacto de uma força gravitacional muito estranha de um dos lados da nave. Primeiro pensaram ser o impacto de um meteorito que poderia causar aquele terremoto ou a própria atmosfera de Júpiter causava por causa da radiação.


- Sabíamos que a chance de sobreviver era pouca. - disse Miguel, quando conseguiram retornar a nave. - Expostos a tal nível de radiação, no mínimo, um câncer a gente levaria de volta pra casa, mas se conseguíssemos um vestígio de prova da existência desse mar aqui em baixo e de qualquer vida nele, tudo teria valido a pena.


Eles começavam a repensar as possibilidades de saírem vivos dali.


Foi quando flashes de luz muito intensos começaram a irromper através do espaço. Não repararam de imediato que era uma estrela sendo engolida por Sagitário A., o buraco negro que estava escondido na Via Láctea, quatro milhões de vezes a massa do Sol. Os anos luz entre eles e aquela monstruosidade galáctica acabariam a qualquer momento.

Quando, finalmente, chegaram lá, depois de muitos criando um campo de antimatéria forte o suficiente para produzir o espaço de dobra, eles chegariam ao extremo da galáxia. Ainda que estivessem na mesma missão há muitos meses, Eta só conheceu Charles, de fato, no dia que a Nave Nemo XLC decolou. Ainda que tivessem contato virtual devido as exaustivas pesquisas que ele enviava para toda a equipe, no primeiro contato real deles, ele fez uma daquelas coisas que as pessoas desejam que aconteça depois de assistirem muitos filmes e, em algum lugar no espaço, parecendo um sonho, disse:


- Moça, você deixou cair esse lenço.


E ela olhou surpresa porque não havia como algo cair onde não havia gravidade e no que pensou isso riu, feliz de raciocinar antes de questionar e parecer boba. Ele não era particularmente lindo, mas tinha olhos de seis mil anos e um ar inteligente.


Logo descobriram que em seus passados terrestres tinham lido os mesmos poetas e, entre termos técnicos de suas vidas exatas, quando não estavam ocupados em traduzir a realidade em números e máquinas, ficaram ali no que pareceram anos luz conversando sobre costumes, conexões, cores e coisas cósmicas.


Tinham acabado de sair da lua em mais uma daquelas buscas inúteis por qualquer coisa, acabaram coletando as informações de androides que estavam lá desde mil novecentos e oitenta e seis. Sabiam que logo, as coisas ficariam confusas no deserto vermelho alaranjado de óxido de ferro, o solo rochoso da superfície que parecia as crateras da lua ou vulcões que era Marte também estava o Monte Olimpo, uma das montanhas mais altas do Sistema Solar. E também o Valles Marineris, um dos seus maiores desfiladeiros. Os contrastes eram gritantes no infinito silencioso, tudo era incrível porque não existiam comparativos. E as duas luas Fobos e Deimos, da mitologia grega, medo e terror. Irregulares como pedras capturadas em órbita pra algum outro lugar. Não via a hora de chegar lá. Em Marte. Onde só a sua imaginação e pesquisa tinham chegado.


Olhou para Charles do outro lado da nave, flutuou até ele:


- Sabia que meu nome vem de uma estrela? Eu tinha uma tia que gostava muito dessas coisas.
- Ah, você é mesmo algo estelar, teus olhos parecem nebulosas.


Ficou sem graça. Mas só depois de alguns milhões de misissipis que eles se beijaram. Ainda não estavam em Marte. Em meio a cumplicidade cósmica e a conjunção do céu das bocas, eles se compreenderam completos como constituídos de constelações. Como dois adolescentes bobos, mas que idade será que teriam naquele instante fora do tempo e o que era a idade ou o tempo? Era tudo invenção humana, limitada, ali, os limites dissipavam.


Major Tom, como Thomas, o comandante era chamado, tomava quase todas as decisões importantes. Então, as vezes eles passavam horas criando frases bonitas pra se dizerem, coisas de quem tinha mesmo muitas horas pra gastar. Saiam, então, com coisas assim, completamente fora da realidade como aquela vida toda era, assim, fora de toda a outra vida, como uma realidade paralela:


- Será que a gente teria se conhecido na Terra? Me diz, onde você andava, que cidade vivia, por que a gente habitou o mesmo planeta por tanto tempo e nunca se viu, ainda que eu sentisse que você existia, mas não era você, era essa ideia de você, não sei explicar, não sei se você é a personificação do que eu projetava, como uma poesia densa, uma poção inebriante, um portal pra essa profundidade tão procurada... tão pronta. Sinto que você é minha há muitas vidas. Mas não minha de pertencer, não minha como é minha essa roupa ou esse nome que eu também visto, minha como algo que eu contenho na constituição do coração e do consciente. Onde você andava, quando teus passos ecoavam naquela terra oca onde eu vivia?

 

- Eu te procurava em protótipos robóticos, em equações equivalentes, em equívocos equalizados, nos equinócios de outono, nos quocientes quânticos, em qualidades e quantidades catastróficas de catarses. Te procurei em caras e coroas, em cartazes e cortinas, na castidade e no calor dos corpos, te procurei nos continentes, nos continuísmos, nos cantos e nas canções. Eu te procurei no plano físico, espacial e espiritual. E te encontrei muitas vezes. Num vento ou num vestígio vertiginoso de Vênus. Num dia cinza e num diagrama, num diálogo disperso dos deuses, num desejo destituído de desespero que aparecia de vez em quando. Eu te tive, também, em mim, de novo, ainda, sempre.


- Um dia toda energia do universo foi um plasma, toda nossa existência coube numa placenta. Tudo cresce tanto, tudo sempre pode se perder em nada irreparavelmente. Ou se tornar tudo. Coincidências cósmicas, colisões de energias, DNA’s, átomos, vivemos um milionésimo de fração de segundo na imensidão do tempo, somos poeira estelar e carbono que oscila na gravidade pensante, penosa, perene e perfeita de tudo. Somos parte do todo e não existimos fora dele, nem ele, pra gente, fora da gente. Quando acreditamos no nosso encontro e ele se fez, como o Big bang, existia essa coisa tão dentro, tão densa, tão destinada a explodir. Era o que existia antes, aquela escuridão absoluta, silenciosa, hiberne, antes da expansão ao barulho bagunçado e tão, aparentemente, eterno que se expande até hoje, até aqui, até agora, quando eu te falo essas coisas todas na ânsia desenfreada de que você me entenda, que a gratuidade de tudo me assusta, que isso não está acontecendo em nenhum lugar além desse instante, dentro e fora da gente, que eu preciso que você compreenda, que essas ondas sonoras, somas de sombras, sonhos, luz e lugar que eu quero que você cale num beijo essa besteira existencial boba em que eu quase te desacredito porque você poderia ser a colisão que não houve, eu posso nunca ter olhado pro lado aquele dia ou você nunca ter dito aquela frase que desencadeou isso tudo, foi o olhar, foi a frase, vai ser o beijo, me conta, como uma borboleta bate as asas em Pequim e eu te perco numa prece sem preço, nos predicados que nunca são presentes, eu te perco quando não pressinto que você só precisa existir, além e aquém de mim, pra gente ser. Eu poderia enganar meus outros cinco sentidos diluindo tudo no sexto?


- Será que um dia vai ser provada a teoria das cordas, aquela das dez dimensões mais o tempo? Será que existe mesmo outro mundo tridimensional a uma fração de centímetro do nosso que não conseguimos ver? E nesse espaço entre mundos, a quarta dimensão, seria possível mesmo viajar no tempo? Será que já não nos dissemos isso muitas vezes e por isso esse sentimento de que eu te reconheço? – ele riu. – Será que somos essa nuvem impermanente e interdependente de átomos que nunca e sempre se encontrarão e perderão em configurações novas pelo cosmos?


- Acho a teoria um pouco abstrata e desoladora. Se a cada trilhão de anos acontece um novo Big Bang, que então, seria a colisão entre dois universos tridimensionais num ciclo eterno, é tão aniquilante ser tão pequeno, é como ser esmagado pela gravidade e a nossa insignificância. – E sua testa ficou vincada de marcas de expressão, linhas verticais cheias de preocupação com aquelas coisas que quase ninguém mais pensava.


- Não seja tão pessimista, vem cá. – e ele a conduziu até a janela da nave, olha lá, O pálido ponto azul. Nossa casa. Já leu o livro do Carl Sagan? É meu livro preferido. Eu tenho ele pra te emprestar, espere aqui e ele a deixou lá com aqueles pensamentos labirínticos por alguns momentos. Mas voltou em seguida.


- Tenho até um papel com uma pequena observação que fiz na época, eu tinha só dezoito anos, não me julgue – ele sorriu. Não veja isso tudo por essa visão limitada, somos parte do todo, nada se perde. Talvez a gente renasça todas as vezes, em outras vidas, espécies, galáxias.
Ela leu escrito na parte de trás do livro:


The Pale Blue Dot Pensar em como a Terra é só um ponto azul no Universo, que tudo o que somos e tudo o que conhecemos está dentro desse pontinho azul e que não somos privilegiados com nada além de uma consciência pra lidar com isso tudo e com a nossa própria insignificância. Existindo no abismo, sustentados pelo invisível da gravidade e da nossa própria identidade. Uma bomba e já era o planeta. Uma bala de 8mm e já era o nosso planeta. E precisamos nos desgastar tanto com tudo, com raivas, rancores e razões. Se, no fim, só a compreensão pode tornar a inevitabilidade de tudo um pouco suportável.


- Que bonito isso. – ela disse sem conseguir formular nada mais inteligente.


Aqui, outro check point, se Charles criou um dispositivo que soltará no espaço e rastreará para descobrir, finalmente, se existem buracos brancos, continue. Se ele simplesmente jogará uma ônix – pedra que guarda informações físicas sobre coisas que aconteceram ao seu redor e uma pedra da lua que guarda experiências espirituais. Como se teria acesso a essas informações ficaria na imaginação do leitor e a história acaba aqui. Boa sorte na próxima jornada.
- Depois dessa época quando eu comecei a estudar de verdade sobre essas coisas eu entendi que, na verdade, nossa essência, a coisa dentro que nos constitui e que alguns chamam de alma, de consciência, de ego, de identidade, de espírito, de tanta coisa, mas é só a nossa energia, ela nunca se perde. Por isso essa missão é tão importante pra mim: quando mandar a Josephine no buraco negro. - Josephine era a androide que ele tinha passado os últimos oito anos aperfeiçoando. Embora parecesse um robô normal em proporções muito pequenas, coubesse na palma da mão e tivesse a estrutura metálica e uns parafusos no que era pra ser sua cabeça pra misturar um Frankestein retrô na estética futurista da robô que daria a ressignificação completa de toda a existência humana. Por dentro ela era constituída de uma borracha protetora que deveria aguentar a desfragmentação da matéria protegendo o minúsculo arquivo de dados que ia no centro como um ponto. O ponto que seria o reverso de tudo o que houve antes e depois dele. Existia mesmo outra realidade? A nossa matéria poderia mesmo permanecer intacta em outra dimensão nos confins do espaço, salva como toda a matéria como um backup do Universo, permitindo que a gente pudesse voltar a conceber o eterno, a confiar na vida que é perpétua e não a morte?


Claro que, se houvesse, eles mesmos jamais saberiam, poderiam apenas desejar que, em um outro Universo, outras criaturas, um dia decifrassem que haviam existido e sido, não especiais, mas humanos – que viveram uma determinada realidade e que, se fossem extintos, sua história não seria, ainda que a memória de tudo fosse intrínseca e indestrutível, em cada fragmento e fração de coisa estava o DNA de todas as outras. Era importante que não se perdesse a forma.
- Quando chegarmos próximo a Sagitário A que está adormecida no meio da galáxia. Precisamos sair de lá muito rápido, antes da explosão pra escapar da radiação, Josephine vai ficar e nos dar notícias do outro lado.  – Ele falou, cheio de convicção – então, quando ela responder, todos esses anos de pesquisa vão ter vallido a pena, os buracos brancos serão comprovados, a eternidade da vida em essência, se algo, ainda que só informação sai do outro lado do buraco da minhoca, se de um lado toda a luz é sugada, por outro ela é produzida e liberta, assim o ciclo.
Assim, como que embriagado por suas ideias, ele a beijou. E eles repararam que não tinham feito mais que isso e os seus corpos gritavam por um conhecimento mais profundo daquilo que eles eram, matéria sólida numa extensão imensa de vazio, quanto mais juntos estivessem menor seria a sensação de estar suspenso no espaço como estavam. Como a música que tocou porque alguém ligou o rádio naquele momento e Etta James e os violinos fizeram tudo parecer muito hollywoodiano e eles sorriram cúmplices porque pareciam ter pensado a mesma coisa e fecharam a porta. Fizeram a velha e eterna dança dos corpos, o yin yang, as moléculas amontoadas, se misturando. Enquanto o ar que antes servia pra ela se tornava Co², eles nada mais falaram, eles faziam a dança de vida e morte que seria a chave de todo inferno e paraíso, a conexão dos corpos que se fundem, ele queria se tornar parte daquela luz nela, aquela combustão, aquele mergulho, precisava ir mais fundo e explorar aquela carne que continha ela, a energia dela, a energia que ele transferia pra ela através do que era a carne sua, o lugar onde ele guardava os seus segredos sagrados e secreções, ele queria transmitir vida a ela, aquela mesma vida sempre tão gasta e inédita. A mesma nova vida. Que extrapolava todos os sentidos e que, ali, sem gravidade, não caia, porque eles voavam.


E do outro lado da janela as estrelas viajavam seus eternos 250 km por segundo, no itinerário interminável de expansão a explosão. E ela nunca saberia os pensamentos que se passavam com ele


Então disse:


-  Suas milhares de pintinhas pareciam constelações espalhadas pelo seu corpo – ele sorriu.
- Mas a pele nada mais é que firmamento mesmo. – Seus olhos vagaram. Se não fôssemos tão racionais, eu diria que isso é mágica.
- Ah, mas a mágica é só o que a gente ainda não sabe explicar. Pensa: até onde a gente consegue ver com os olhos, até onde a gente consegue compreender usando apenas os nossos tão limitados sentidos que com a imaginação atingem infinitos, ela vai primeiro onde depois a lógica tem que construir e questionar e evoluir pra chegar, onde essa coisa que não precisa de auxílio externo, essa supernova que explode por dentro, depois do que foi luz condensada presa, sólida, limitada, que explode e forma  buracos negros que vão sair, talvez,  em outro universo. Mas que antes, antes a gente chama de mágica.


E ela só podia responder aquilo com beijos.  E pensar onde aquilo tudo acabava e por que alguma parte de dentro aceitaria a finitude dos corpos no infinito do sentimento e do espaço.
- Você pode traduzir em palavras pra mim. Essa coisa que eu só entendo em números. – Ela sorriu.


Mais tarde, quando os outros tripulantes contaram que eles desceriam na base em Marte, ficaram animados. Iam apenas recolher dados de outras pesquisas, aquelas sobre a existência de vida por lá ou, talvez, outra tentativa de comprovar que a origem da vida tinha mesmo vindo de cometa e se espalhado pela Terra e, assim, também por Marte. Olhando pela janela era muito claro que não acreditar em outras formas de existência era um egocentrismo idiota humano. Talvez não fosse algo feito nas proporções dos nossos olhos. Talvez fossem formas feitas para outras finalidades além de serem especuladas e, possivelmente, escravizadas ou escravizantes aos homens – porque eles não pareciam prontos pra dialogar. Não fizeram isso nem com o Cristo que até hoje reverenciam. Mas Eta divagava sobre isso enquanto revia complexos mecanismos de dados e equações para o aperfeiçoamento de um dos geradores da nave. Energia sustentável. Nem isso tinham aperfeiçoado ainda. E a Terra explodindo de gente, queimando carvão e petróleo, extinguindo energia como se qualquer coisa que não ela fosse eterna. Difícil de defender a humanidade. Bom mesmo se existisse uma máquina ou deus que pudesse amar incondicionalmente. Pensou melhor. Os deuses já foram criados e amados e muitas guerras foram criadas em nome deles. As máquinas já foram criadas e muitas acabaram escravizando ainda mais o homem. Tudo culminava no mesmo ponto: só a consciência pode libertar. Como chegar a ela que eles tentavam entender ali suspensos no espaço. No coração da galáxia onde viviam.


- Vem, vamos dar uma volta, colocar os pés no chão um pouco – Charles disse.
- Ah, verdade. Nossos primeiros passos juntos.


O sem som do cosmos tornava as batidas de seu coração dentro do corpo tão altas, tão propagadas, tão longas que aquele imenso espaço de matéria escura fosse um útero eterno e estrelado.


Desceram na Base em Marte. Tudo o que queriam era uma xícara quente de café, sentados em uma sala de jantar como se assistissem um pôr do sol num dia da vida de antes. Isso fez com que Charles acabasse contando o que tinha se questionado aquela noite:


- No fundo, é sempre a mesma luta entre paradoxos. Eu quero provar que a informação se salva. Porque a física quântica diz que nada se perde, mas Hawking, primeiro disse que nada sobrevive a atmosfera densa de um buraco negro, depois falou que a informação poderia se salvar na radiação emitida pelo próprio buraco negro, lá no ponto de não retorno. Então, no fim, talvez Josephine ainda pudesse só confirmar essa última teoria.


Ele estava preocupado. Mas como sabia que teriam que pensar muito nisso nos próximos dias, tentou mudar de assunto.


- Sabia que temos pelo menos dez vezes mais células nos nossos corpos do que o número de estrelas na Via Láctea toda? Se pensar nisso, somos uma galáxia engarrafada. Isso me lembra Baudelaire e os teus lábios, teus olhos, teu corpo abrem a porta desse infinito que eu amo e jamais desvendo. Mas acho que perdi a conexão entre uma coisa e outra. Você faz isso comigo. Essa distorção entre causa e efeito.


Como não sabia o que responder acabou dizendo a primeira coisa que passou em sua cabeça
- Sabe que algumas imagens assim do universo – apontou para a janela -  me lembram aquelas boates de teto escuro com aqueles globos de luzes coloridas e ácidos que derretiam o cérebro nos anos 90, não me julgue. Eu não sei lidar com o que você me fala. Eu diria simplesmente que te amo. Mas acho uma combinação limitada de sons e fonemas pra essa coisa tão grande que eu sinto. E essa frase já é tão gasta. Eu já usei antes. Queria usar algo inédito contigo, que fosse só seu, que tivesse as dimensões incabíveis em palavras que é o que a gente é, esse ah que extrapola as proporções, esse ah que eu sinto de gritar aqui pro infinito desafiando as moléculas moles da nossa existência finita que existimos e somos. – ela sentiu que ia cair, desacostumada com a gravidade talvez.


Ele sorriu.
- Nossa como eu sou dramática. E você pior ainda.


Nesse momento, felizmente, foram interrompidos por Major Tom que chamava de volta pra nave. Apenas alguns anos luz os separavam do buraco negro. Precisavam partir.


- Você sabe que se a Josephine voltasse, de alguma forma, ela talvez comprovaria aquelas  teorias de que o universo é finito. Que talvez o universo como conhecemos seja um hall de espelhos ou um dodecaedro – como uma bola de futebol e que chegando ao fim dele você cai do outro lado e volta pro começo, ad infinitum. – ele suspirou – não consigo nem compreender se isso seria libertador ou ainda mais aniquilante. Verdade é que o homem não sabe lidar nem com a imensidão da Terra, ele seria capaz de se sentir claustrofóbico sem essa ideia de infinito sobre sua cabeça. Sem essa ideia de expansão eterna. Mesmo que tudo isso sejam só palavras, noções, conceitos.


- Acho que a humanidade merece mais fé que isso. – ela defendeu. Evoluímos há milhares de anos. Certo que existe essa coisa terrível entre as pessoas, essa dificuldade em trocar o corporativismo pelo cooperativismo. Essa incapacidade de enxergar que não somos inimigos, que viemos da mesma árvore da vida e aquelas coisas que só a arte ainda pensa, porque todo o resto se alienou dessa questão espiritual. Porque a igreja sempre ignorou isso, ela promete um paraíso depois em nome de um sacrifício do agora – quando penso nisso, sinto vontade de gritar por todas as pessoas que se reprimiram por isso. O espiritismo faz isso de uma forma menos cega, mas também faz. E, ainda assim, a psicologia, a terapia, pelo menos, tentam levar a um nível maior de consciência. Mas acabam apenas em remédios e drogas pra anestesiar essa dor existencial. Esse espaço em branco. Onde eu não sou eu nem o outro ou o todo. Onde eu ainda estou dormindo apesar de estar no meio do trânsito ou do burburinho burro e burguês das buzinas e eu preciso estar consciente e funcional, preciso que meus pés obedeçam o itinerário interrompido por esses pensamentos de desconexão em que eu queria tirar os sapatos e conversar sobre a gravidade da gratuidade da vida. Sobre o medo de enlouquecer. Sobre o medo de acordar e não estar aqui, agora, com você, num foguete fora do tempo/espaço, procurando respostas pra questões muito maiores que a gente, eu tenho medo de ter te sonhado. Ou que eu acorde de você. E que, talvez, isso crie um outro buraco negro, ainda maior, maior que esse que a gente carrega nos olhos e que apelidou de pupila, sinto medo que ele sugue toda a esperança de mim, no amor, na humanidade e que eu veja as pessoas dessa forma feia e fria, dessa forma em que se é mesmo capaz de tudo, esse nó que eu sinto quando vejo alguém matando um filhote ou ferindo alguém por um pedaço de carne ou de papel. Esses extremos que precisamos tocar para sentir qualquer coisa porque estamos embrutecidos demais pelas tradições e traições, pelos caminhos eternamente trilhados e intrincados nos nossos sentidos como a única rota compreensível. Eu sinto medo, sinto muito medo disso tudo.


- Os buracos negros nada mais são que estrelas que morrem, pequena. A humanidade vai ficar bem. Nós vamos ficar bem. Existe um buraco branco do outro lado.


- Mas, no fundo, você sabe que isso tudo pode ser um grande engano, que tudo pode mesmo se perder depois do horizonte de eventos, que talvez tudo seja mesmo denso demais por lá, denso, aniquilante e sem fim. E você sabe que nenhum de nós tem a menor ideia como vai ser voltar pra Terra se isso acontecer. Ou mesmo que aconteça, como vai ser?


E, de repente, ela largou no ar aquela pergunta que não flutuou apesar da ausência da gravidade, a frase caiu pesada no pensamento de ambos como uma pedra. Ele falou:
- Não sei. Eu pensei em você comigo. Sempre. Só isso. Não importa se a gente vai morar lá em casa com meu cachorro ou na sua casa na província. Não me importo se vamos ter dois filhos, nenhum ou cinco, se você quiser morar num trailer e viajar o mundo nele… Eu não sei. Só sei que não quero imaginar um futuro em que você não exista.


- Eu também não. Não vamos ser corroídos pelo corriqueiro corre corre de todo dia, sabe como é a vida sem estrelas. Dá até aflição lembrar.


- Claro que não, a gente pode ter estrelas nas nossas cortinas.


Nesse momento a nave começou a oscilar e fazer uns barulhos de alerta.


- Olha, se alguma coisa der errado, você sabe que eu estou contigo em energia.


Ela não teve tempo de responder porque a Nave começou a fazer barulhos estranhos, inesperadamente, eles tinham atingido a velocidade da dobra espacial.


Começou com as cores frias, azul, cada vez mais cinza, cada vez mais escuro, então tudo se tornou muito quente, laranjado cada vez mais forte vermelho até se dissolver em preto, muito preto, absolutamente preto. Como as pupilas no centro de todas as cores que existiam em todos os olhos nas espirais que eram as formas originárias de tudo o que existia no universo, das couves-flores, caracóis, DNA’s a constelações, tudo em espirais se constituía e se consumia.
E ela ainda teve um milésimo de segundo para tentar encontrar uma explicação quântica pro quase. Todos os quases, todos as vezes que quase aconteceu e não foi porque algum neurotransmissor enviou sinal errado e então o microcosmos interferiu daquela forma no macrocosmos e criaram aquela dimensão em que o buraco negro os engoliria. Não sabia se tinha sido ele ou se foi a própria nave que por algum comando lógico daquele jeito matemático que ignorava a importância ou não de sobreviverem que tinha originado aquilo. Não, talvez fosse o próprio buraco negro que se movia de um modo ainda mais aterrorizante e absoluto que imaginavam, talvez fosse a velocidade da própria queda, assistia tudo se desfragmentar ao redor, logo ela também sentiria a dissolução de tudo o que era, de tudo o que conhecera, nenhuma comoção ou conexão corpórea, só essa consciência cósmica.


Eles iam abrir a caixa de Schrödinger. Ela precisava acreditar que ele estaria do outro lado ou que se aniquilariam juntos naquela massa densa de matéria escura, o vácuo que chegou tão rápido, tão rápido que ela nem sentiu qualquer dor porque quando se morre é como respirar pra dentro e o ar que se puxa vai se fechando fechando fechando até que ele se condensa  tanto num átimo e então os átomos explodem como um Big Bang e a gente se perde em átomos voltando ao todo. Assim, assim era morrer. Depois ficava tudo quieto, eterno e devagar. Esperava que tivesse sido assim também pra ele.

- Acho que se eu concluir aqui, fica ok.
Essa essência vai ser a alma? Consciência cósmica e talvez seja tudo o que existe
campo vibratório, música das esferas
o elo entre o mundo de dentro e o de fora
e mesmo que Josephine nunca responda, ela vai conter o fragmento do todo que vai permitir que tudo se reconstrua – em algum lugar no tempo-espaço, uma vez que cada parte – como uma célula – contém a semente para recriar o todo.
Toda energia no universo é neutra, atemporal e sem dimensão
de partículas subatômicas a galáxias
nunca vemos nada na sua totalidade, porque tudo é feito de muitas camadas de vibração e está constantemente mudando
Meus átomos atados aos teus através dos átimos desse atrito atroz da atmosfera até que traduzimos em tato a tontura tortuosa do que era torturante, nenhuma incompreensão mais, nenhuma incompletude ou inquietação. Era só (tudo) isso?


VERSÃO BONITINHA:
Se ele se perde no espaço e ela volta para a Terra e resolveu seguir em frente, continue nessa página. Se os dois são sugados pelo buraco negro, continue na (****). Se ela voltou pra Terra e viveu de reminiscências continue na (***). Se ela resolveu tentar recriar Charles através dos dados salvos em Seraphine em um computador, continue na (**).


Quando eu entrei naquele foguete aos vinte e sete anos com o Charles, estávamos apaixonados, éramos tudo. Ele era só um cara de um metro e setenta e sete, olhos castanhos e todos os sonhos do mundo. O mundo que, então, parecia prestes a ficar inabitável, toda aquela poluição, toxinas, a desvalorização do humano, todo aquele petróleo queimado, a atmosfera diluindo, as pessoas se matando por um pedaço de carne, por um pedaço de céu. Terrível. Charles era astronauta, eu era só uma engenheira que ia manejar os robôs. Foi algo de outro planeta mesmo, quantas pessoas podem dizer isso. – a velha sorriu por sobre seus óculos de aros dourados que já não refletiam luz alguma porque o sol se punha e a noite começava a se encher de estrelas que pareciam estar em casa no seu vestido meio futurista fúnebre, todo preto sob um chale onde a via láctea a aquecia em forma de lã.


- Mas você perdeu ele lá. Pra sempre. Ou ele continua congelado no tempo, existe algum jeito de resgate?
Etta sorriu condescendente pras dúvidas de Jonas e continuou sua história, pedindo pra não ser interrompida.
- Só sei que ele está em uma outra dimensão. Existimos durante um tempo na mesma, isso que importa. Vivemos aquilo. Começou mesmo no foguete. Quando você se distancia da Terra, quando sai do chão, quando depois das nuvens, do lado de fora, você observa aquele grande teatro lá em baixo, onde desempenhamos, desenhamos e desesperamos nossos papeis de humanos, de vivos, o único planeta até onde sabemos com as condições químicas e quiméricas pra nossa existência tão complexa e aperfeiçoada que evolui há milhões de anos. Até chegar aqui. – Sorriu.

*
Quando viu que ele se perdera pra sempre no espaço, não pôde evitar os pequenos fragmentos frágeis de partículas brilhantes como cristais que se moviam, lentamente, pra cima, até se dissolverem em nada, as lágrimas. Não podia fazer nada, você sabe, por trás da cortina do tempo, escondido entre as constelações, nunca mais nascem e engolem tudo, engolem o que parecia tão completo, mas precisou acreditar, ainda uma vez, que ele não morria, que ele apenas se tornava outra coisa, que se disseminaria entre as estrelas e estaria em tudo porque somos e estamos tudo e todos constituídos da mesma energia, apenas vibrando em diferentes frequências.


Depois do impacto da perda, a angustia anestesiada na antimatéria do antigo, etéreo, eterno e terno sentimento que via se diluir, o que um dia foi simbiose, sinergia que ficou feliz por ter existido e acreditou que fosse existir sempre, independente da cinética cinza do instante que transformava tudo em tão pouco.  E a gente vai reencontrar, nem que seja quando tudo entrar em fusão ao todo de novo e os meus átomos vão reconhecer, redescobrir, redesenhar os teus. E a gente vai ser uni. Universo, de novo.

Conto inédito de Gabriely Santos, autora de «Mistura

Misteriosa de Mentiras Mesmas» publicado pela Muruci Editor

Eta-Carinae

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