O cotidiano como
travessia interior
Maria Teresa De Ré Porto transforma objetos comuns, experiências íntimas e reflexões sobre identidade em uma obra híbrida que faz da poesia um exercício contínuo de elaboração da memória e do amadurecimento humano.
Há uma tradição relativamente consolidada na literatura brasileira que transforma o cotidiano em matéria de reflexão existencial. De Clarice Lispector, que fez do gesto doméstico um espaço de epifania, até Carlos Drummond de Andrade, cuja poesia frequentemente encontrava o extraordinário escondido na rotina, muitos escritores compreenderam que a experiência humana não depende de acontecimentos grandiosos para adquirir densidade literária. Escorredor de Louça, de Maria Teresa De Ré Porto, insere-se nesse horizonte, mas o faz a partir de uma sensibilidade marcadamente contemporânea, em que a escrita dialoga com a psicologia, a cultura digital e o discurso do autoconhecimento sem perder de vista a dimensão poética da experiência.
À primeira vista, trata-se de um livro de poemas. No entanto, essa classificação rapidamente se mostra insuficiente. A obra aproxima-se mais de um caderno de formação, um diário lírico fragmentado, no qual poemas, prosas breves, aforismos e fotografias compõem uma narrativa descontínua sobre o processo de tornar-se sujeito. Não existe uma história linear nem personagens propriamente ditos; existe uma consciência que se observa, se interroga e se reconstrói ao longo das páginas. Essa fragmentação, longe de representar ausência de unidade, constitui justamente sua forma de organização. O livro avança por estados de espírito, não por acontecimentos.
O próprio título revela uma das escolhas simbólicas mais felizes da obra. Um escorredor de louça é um objeto funcional, discreto, quase invisível dentro da casa. Sua presença costuma passar despercebida justamente porque pertence ao domínio da repetição cotidiana. Maria Teresa desloca esse objeto para o centro da experiência poética. A metáfora torna-se evidente sem jamais se esgotar: a louça guarda as marcas do uso, precisa ser lavada, repousa enquanto a água escorre, até que esteja novamente pronta para servir. A imagem aproxima o trabalho doméstico da elaboração da memória, sugerindo que também as experiências humanas precisam ser limpas, reorganizadas e deixadas descansar para adquirirem outro significado. O cotidiano deixa de ser mero cenário e passa a funcionar como método de compreensão da existência.
É precisamente nessa valorização da experiência comum que reside uma das maiores virtudes do livro. Maria Teresa não procura construir uma persona poética excepcional. Sua voz nasce do reconhecimento da vulnerabilidade. Em vez de elaborar uma escrita apoiada na elaboração formal ou na opacidade da linguagem, prefere aproximar-se da conversa íntima, da confissão e da observação direta. Esse procedimento aproxima sua poesia de uma geração que escreve menos para demonstrar domínio técnico do que para construir espaços de identificação afetiva com o leitor.
Essa escolha, contudo, não deve ser confundida com espontaneísmo. Há uma arquitetura perceptível na disposição dos textos. O percurso que se inicia com a descoberta do amor-próprio evolui para o enfrentamento da culpa, da dependência emocional, da solidão e da necessidade de individuação. Não por acaso, conceitos como ego, consciência, simbiose, terapia e crescimento aparecem reiteradamente ao longo da obra. O vocabulário da psicologia atravessa o livro sem assumir caráter acadêmico; transforma-se em matéria poética. Em muitos momentos, os poemas parecem registrar aquilo que a linguagem clínica dificilmente alcança: a textura emocional da transformação interior.
Talvez esse seja um dos aspectos mais contemporâneos de Escorredor de Louça. A autora pertence a uma geração que cresceu sob a influência simultânea da psicanálise popularizada, das redes sociais e da cultura da saúde mental. Facebook, Messenger, Ctrl + Z, diagnósticos psiquiátricos e referências ao universo digital convivem naturalmente com metáforas tradicionais da poesia amorosa. Em vez de provocar estranhamento, essa convivência evidencia uma literatura consciente do tempo em que foi produzida. O livro não tenta escapar do presente; incorpora-o como linguagem.
Essa contemporaneidade também se manifesta na recusa do hermetismo. A poesia de Maria Teresa privilegia a comunicação. Seus versos são curtos, frequentemente construídos sobre paralelismos, repetições e perguntas dirigidas ao próprio sujeito. Em muitos momentos, aproxima-se da oralidade, produzindo um efeito de conversa silenciosa entre autora e leitor. Essa acessibilidade amplia significativamente o alcance emocional da obra, embora também constitua um de seus pontos de tensão estética.
Isso porque, em determinadas passagens, a proximidade com a linguagem cotidiana conduz alguns textos para um território limítrofe entre a poesia e o discurso motivacional. Certas formulações assumem um caráter afirmativo ou pedagógico que reduz a polissemia característica do poema. Quando isso acontece, a experiência tende a ser mais explicada do que sugerida, diminuindo a abertura interpretativa que frequentemente distingue a literatura de outros discursos contemporâneos sobre desenvolvimento pessoal.
Entretanto, seria um equívoco reduzir o livro a essa característica. Seus melhores momentos demonstram justamente o contrário. Quando a autora confia na força da imagem — seja ao transformar a casa numa metáfora do próprio corpo, seja ao representar a dependência afetiva como uma simbiose ou o crescimento como uma metamorfose — sua escrita alcança uma densidade simbólica bastante expressiva. Nesses instantes, percebe-se uma poeta capaz de converter experiências íntimas em imagens universais, permitindo que o leitor reconheça nelas aspectos de sua própria trajetória.
Também merece atenção a estrutura fragmentária da obra. Embora cada texto possa ser lido isoladamente, o conjunto produz um efeito cumulativo. A repetição de determinados temas — amor-próprio, perda, amadurecimento, liberdade, identidade — deixa de ser redundância e passa a funcionar como um movimento espiralado, em que as mesmas questões retornam sob perspectivas diferentes. Essa estratégia aproxima o livro do funcionamento da memória humana: raramente resolvemos um conflito de uma única vez; revisitamo-lo inúmeras vezes até que adquira outro significado.
Existe ainda um aspecto pouco evidente, mas decisivo, na construção do livro: sua confiança na sinceridade como valor estético. Maria Teresa escreve sem recorrer ao distanciamento irônico tão frequente em parte da poesia contemporânea. Há um risco nessa escolha, pois a exposição emocional excessiva pode facilmente resvalar no sentimentalismo.
A autora, contudo, consegue evitar esse desfecho na maior parte da obra porque seu interesse não está em convencer o leitor da intensidade de sua dor, mas em compreender os mecanismos que a produziram. A escrita funciona menos como desabafo do que como investigação.
Nesse sentido, Escorredor de Louça talvez possa ser lido como um livro sobre o processo de individuação. Mais do que falar de amores ou perdas específicas, interessa-lhe acompanhar a lenta construção de uma consciência capaz de sustentar a própria autonomia. O percurso emocional registrado ao longo das páginas não busca oferecer respostas definitivas; procura registrar o movimento permanente entre fragilidade e fortalecimento, dependência e liberdade, silêncio e palavra.
Seu maior mérito, portanto, reside justamente na autenticidade. Em um momento histórico marcado pela velocidade das opiniões e pela superficialidade das relações digitais, Maria Teresa escolhe desacelerar a experiência para examiná-la em detalhes. Sua literatura não pretende revolucionar as formas da poesia brasileira contemporânea nem romper com tradições estéticas consolidadas. Seu projeto é outro: transformar a intimidade em espaço de investigação humana.
Quando alcança esse objetivo, produz textos capazes de permanecer na memória do leitor justamente porque reconhecem que, antes de qualquer elaboração intelectual, toda literatura nasce da tentativa de compreender aquilo que sentimos e nem sempre sabemos nomear.
Escorredor de Louça confirma, assim, que ainda existe lugar para uma poesia da experiência, desde que ela não se limite ao relato autobiográfico. Ao converter o cotidiano em metáfora de transformação, Maria Teresa De Ré Porto demonstra que a literatura continua encontrando, nos objetos mais simples da casa e nos gestos mais comuns da vida, matéria suficiente para refletir sobre aquilo que permanece sendo a grande questão de toda escrita: o difícil exercício de tornar-se humano.

