“Deus Cão” de Leonardo Forgiarini Guedes esmiuça a subjetividade da relação ancestral entre o homem e o cachorro

Livro de contos do autor também terá renda destinada a grupo de apoio que resgata animais de rua no Rio Grande do Sul.

O cachorro foi o primeiro animal a ser domesticado pelos humanos. Há indícios arqueológicos de que a sua domesticação tenha iniciado ainda no período da era glacial, há cerca de 500 mil anos. De fato, a história entre o homem e o cachorro é ainda mais profunda que a carga de companheirismo e amizade, muitas vezes trazida desde a primeira infância de cada pessoa, pode mensurar. Mesmo assim, tentando descrever uma fração desta história, desta relação, é que Leonardo Guedes, um advogado de Porto Alegre, resolveu escrever o seu livro de contos, no formato e-book “Deus Cão”.

Não se enganem pelo título. Aqui o cão não é tratado como uma divindade, mas sim como um ser tão sábio e dotado de tamanha capacidade de abstração que consegue se expressar, por vezes, até mesmo através de ironias. Nisto reside a divindade deste Deus Cão. Mas este é apenas um pequeno ponto deste iceberg de que se trata da relação emocional e ancestral entre o homem e o cão. Indo muito além do bem e do mal, como diria Nietzsche, Leonardo Guedes vai bem mais além da relação emocional entre o homem, ainda menino, que descobre a verdadeira amizade com o seu primeiro cachorro. Guedes também vai mais além da relação ancestral onde os primeiros lobos primitivos interagiam com os homo sapiens em uma relação de troca de segurança por alimento em seus acampamentos.

Neste sentido Leonardo Guedes não deixa de contextualizar esta relação com intenso regionalismo, lembrando que o homem do sul, o homem dos pampas, também tem uma relação mais próxima com a sua própria ancestralidade (porque não dizer) primitiva. Fica aí também demonstrada a relação entre o regionalismo suave, criativo e natural junto ao companheirismo e a camaradagem de um bom “cusco” como o autor gosta de se referir em suas palavras. Como diria Leon Tolstói, fale de sua aldeia e estarás falando do mundo. Guedes, neste sentido, compreende a máxima do mestre russo ao abordar temas humanos caros á colonização do Rio Grande do sul, pertinentemente observados no conto Anahí. Somente aqui, teríamos “assunto” para outro livro inteiro. 

Leonardo Guedes também não deixa de contemplar os problemas contemporâneos ao destinar a totalidade da renda com a venda deste livro para uma entidade que cuida, resgata e ampara animais de ruas. Certamente os amigos do grupo de apoio Amor de 4 Patas em Canoas muito têm a agradecer, não apenas pelo apoio financeiro, mas pela lembrança e pelo companheirismo do autor com a causa de amparo aos animais que enfrentam ainda, infelizmente, interações com seres humanos desprovidos de “humanidade” ou, no caso, da presença espiritual e divina dentro de si. De fato, Deus Cão, ainda que em suas entrelinhas, remete a divindade da relação animal, que ama e perdoa, incondicionalmente, ao contrário de muitos humanos que desconhecem estes valores morais tão presentes nos animais.  

Segundo o autor Deus Cão é um livro de contos “macio e cheiroso como o cobertor favorito de um cusco de mais de cinquenta anos”. É também a música de chegada de um antigo amigo. Ou a poesia cantarolada por um homem feliz pelo seu retorno ao lar. A prosa de quem pela primeira vez mostrou a coragem que sempre teve. A solidariedade que passamos a vida inteira buscando.

São coisas importantes, mas não tanto. O que tem que se deixar fixo na porteira é que é mais difícil a vida de um Gaúcho sem um cusco. O cusco do pampa é um tinhoso, envenenado, imortal, discreto, que corre mais que cavalo, mais que dois cavalos juntos. Se eu jogasse uma capa sobre ele, poderia sem exagero chamá-lo de herói.

É um herói sim, magro, esgualepado, bondoso e de grande apetite. Não nega fogo, não pula um passeio, não reclama, é obediente e gosta de um cobertor velho para as dores que esconde quando dorme. Igualzinho a esse livro. Para esconder nossas dores antes de dormir.

O Autor

Leonardo F. Guedes é bacharel em direito e escritor, com sua primeira obra publicada este ano na Amazon, a aventura distópica Colitero, disponível para o público no formato de ebook. Neste segundo livro, Deus Cão, o autor provoca o leitor com seus contos que navegam pelo universo do regionalismo - que conheceu durante sua passagem pelo interior do Rio Grande do Sul - e outros temas atuais, como a internet, a relação entre pais e filhos e a força da religião, sem esquecer, é claro, do amor entre homem e cão, que inspirou o título da obra.